Alma paulista

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José Neistein
2002

Washington, Junho de 2002.

Sérgio Lucena é um legitimo herdeiro de sua cultura regional, a nordestina, mais especificamente a da Paraíba, seu Estado natal. Dela, ele traz em seu mundo interior a abertura para o mágico, o sobrenatural, o mítico. Sua pintura, antes de ser convidado para integrar o projeto de cartões postais de São Paulo, era feita, em grande parte, daquelas dimensões. Ao longo de sua trajetória, ele foi amadurecendo seu domínio técnico, experimentando com a cor, a forma e a composição, tendo atingido, mais recentemente, pontos cada vez mais altos em sua expressão estética e espiritual.

Essa experiência regional aguçou seu interesse pelo universal. A fusão dessas duas dimensões se deu em São Paulo. Essa fusão, por sua vez, prenuncia vôos ainda mais altos, num futuro não muito distante, porque, basicamente, sua visão da cidade de São Paulo funde o fantástico e o surreal que ele trouxe da Paraíba, com a disciplina formal que a arquitetura e o urbanismo caótico da capital paulista lhe inspiraram, no sentido de construir uma lógica, a partir de uma realidade alógica.

Esse rigor formal, aliado a uma dimensão lírica, meditativa e silenciosa, expressa no céu da cidade, em constante mutação, harmoniza o dinâmico da natureza e o estático das construções e dos monumentos, harmonia essa que denota uma busca interior, espiritual, feita de reflexão, emoção e imaginação.

Assim, o obelisco do Ibirapuera, imponente e digno, plantado num círculo cerimonial, abraçado por um canteiro verde, com sua sombra projetada no solo, e a grande urbe apenas insinuada ao fundo, com sua geometria e linhas de luz, resulta numa composição que tem muito em comum com as intenções e o clima dos quadros da pintura metafísica de Chirico, criados durante a Primeira Guerra Mundial. Enquanto que no monumento aos Bandeirantes, as figuras humanas e os cavalos de pedra são trazidos à vida, com a inquietação diante do desconhecido estampada nos rostos. Ao fundo, no alto, um céu soturno, iluminado por uma luz opaca, lembra os céus eloqüentes de vários quadros de Caspar David Friedrich, criados na Alemanha, durante a primeira metade do século dezenove.

A sala São Paulo, vazia, com o palco iluminado circundado pelas poltronas e a estrutura neoclássica combinada com as linhas contemporâneas sóbrias e impessoais submersas na escuridão, emerge num quadro meio construtivista, meio fantasmagórico.

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O quadro do Edifício Itália, combinado com os prédios das redondezas, tendo ao fundo a profusão de construções que desaparecem no horizonte, encimados por um céu poluído, nos dá o lado cinza, acabrunhante, da megalópole confusa.

Já na tela do Banespa, visto do Martinelli, temos um contraponto de um passado que se recusa a se desvencilhar de um passado ainda mais remoto, com o passado mais recente do arranha-céu luminoso e triunfante, emoldurados pelo centro da cidade, diluído pela poluição, e um céu, que aos poucos vai querendo ser azul. Em pé, no topo de um elemento arquitetônico decorativo neobarroco do Martinelli, vemos com pássaro sério, filosofante, que olha com um misto de deslumbramento e reflexão para o Banespa, e para todo esse enigma que é São Paulo. Esse pássaro é o próprio artista.

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