Entrevista ao jornalista Guilherme Cabral

The deep sleep of beauty 2014 - oil on canvas - 78.74 X 59.05 in - O profundo sono da beleza - 2014 - óleo sobre tela - 200 X 150 cm

11 de novembro de 2013

O que você está fazendo, hoje? Ou seja, está com alguma exposição aberta? Em caso positivo, dê detalhes sobre ela e onde acontece e até quando vai?
Estou desenvolvendo uma serie de pinturas de paisagens. Elas são a primeira notícia que trago de um mergulho que durou cinco anos onde pude resignificar minha pintura. Neste período que vai de 2007 a 2012 a necessidade era uma pintura que fosse capaz de se sustentar pelos seus próprios valores pictóricos, sem qualquer auxilio da forma conhecida a minha pintura abdicou da referência objetiva.  A busca era por alcançar o clima e a atmosfera próprios da minha pintura, algo inteiramente fiel ao que sou. Gradualmente fui compensando a ausência da forma narrativa com uma cor cada vez mais complexa e sofisticada, porem de resultado sutil, uma pintura silenciosa e de aparente simplicidade. Este período abstrato eu chamei de Ænigma.  Minha pintura de paisagem atual é fruto deste momento, resulta naquilo que tanto esperei, pelo que tanto me empenhei…  Esta nova serie eu chamo de Um Lugar Comum.

Já antecipando, qual(is) o(s) projeto(s) que você pretende realizar? O que será e para quando?
Estamos em curso com alguns projetos concomitantes, um livro e uma mostra que deverão acontecer no próximo ano.  O livro abordará meu trabalho atual situando-o a partir do meu percurso. A mostra será basicamente da serie atual, porem contando com obras da serie Ænigma que participarão como referencia e respaldo à atual pintura. A curadoria da mostra é da Julia Pereira Lima e o texto do livro do curador Alberto Saraiva, além de um texto do meu galerista Renato De Cara e um outro meu.  Uma boa notícia é que minha nova galeria, a MEZANINO, http://www.galeriamezanino.com vai estar apresentando agora em 03 de Dezembro um prewiew de dez obras da minha nova serie de pinturas na Brazil Art Fair, a primeira feira internacional de galerias brasileiras que acontecerá em Miami paralela à Miami Art Basel.

Há alguma possibilidade de vir à Paraíba realizar alguma exposição? Qual e quando seria? A propósito, lembro-me que você me falou de trazer, por exemplo, a exposição Aenigma para João Pessoa. Não tenho certeza se a trouxe. Poderia confirmar?
Não há expectativa de eu expor na Paraíba por agora.  Esta exposição a qual você se refere teria sido na fundação Usina Cultural Energisa, o que não ocorreu dado a falta de seriedade da instituição. Mas tenho que reconhecer que a falha neste caso foi toda minha, por amor a minha cidade fui negligente comigo mesmo e não me precavi documentalmente. Embora tenha solicitado um contrato, o tempo foi passando e como conhecia as pessoas confiei. O resultado foi a constatação de que permanecemos no mesmo estágio primário no que tange ao trato para com a cultura e com o artista.  Mas tenho certeza que isto vai mudar em algum momento, a cidade cresce a olhos vistos e junto com ela a necessidade de uma mentalidade mais comprometida com valores e princípios éticos.

Está com saudades de expor na Paraíba, sua terra natal?
Minha terra é a minha origem e a matéria prima da minha alma,  o que mais posso dizer…

A propósito, há quantos anos você deixou a Paraíba para prosseguir a carreira em São Paulo? Porquê você tomou essa decisão? Essa mudança serviu para ampliar seus horizontes profissionais e de que maneira isso – eventualmente – ocorreu? Em que bairro você mora em São Paulo? Seu estúdio é no próprio local de sua residência?
Fazem quase 11 anos. Foi uma decisão determinante em minha vida e minha pintura. Sem esta mudança eu não posso imaginar o que hoje eu seria. Sim, o mundo é infinitamente mais amplo hoje e eu me sinto muito grato por tudo…
Moro no Sumaré e tenho meu estúdio na Pompéia, um amplo e iluminado galpão que tornei o meu templo.  Faço a pé o trajeto da minha casa ao estúdio, é uma região muito agradável.

Cópia de ateliê 1

No início, a adaptação foi difícil? Porquê?
Não posso dizer que foi difícil, realmente não foi, ao contrário foi um respiro. Aqui encontrei logo o que tanto ansiava, diálogo. Um artista não pode viver sem interlocução.

Você tem acompanhado o atual movimento das artes plásticas na Paraíba? Quem você poderia destacar, nessa área, e por qual razão?
Confesso que só tenho noticia do que chega por aqui, o que naturalmente não representa de forma adequada o atual momento na Paraíba. Me alegro por ver um importante artista paraibano em destaque, o Zé Rufino. A razão é obvia, um artista tão fiel a si mesmo que torna-se realmente conectado às questões do seu tempo.

Você se considera um artista de estilo contemporâneo? Como é a rotina do seu processo criativo?
Não creio que o termo contemporâneo possa ser definido como estilo, talvez o contemporâneo seja justamente não ter estilo, digo, não na forma como entendemos estilo. A arte contemporânea atua como sempre atuou a arte em cada época, uma reflexão sobre seu tempo. Nosso tempo ampliou as possibilidades a um patamar nunca visto, a arte lida com esta singularidade de eventos e busca formalizar, não uma resposta, mas a questão mais apropriada frente a situação. Sim, porque a resposta é responsabilidade de cada um de nós. A verdadeira obra de arte é aquela capaz de exigir uma resposta do seu espectador, a única resposta possível, a sua própria resposta. Esta é a ideia, eternamente contemporânea, da esfinge:  decifra-me ou te devoro.
Eu faço pintura, uma linguagem primordial, eu observo atentamente o que me parece ser a demanda da época, gosto de pintar, não quero outra coisa, não me é necessário. A pintura segue sendo capaz de lidar com a realidade, especialmente agora quando a realidade volta a ser, embora noutros termos, uma incógnita absoluta. Minha grande motivação é, com a pintura, colocar da forma mais assertiva possível a questão do meu tempo para o meu tempo. Sim sou um artista contemporâneo.
A rotina do meu processo criativo se resume em ler muito, especialmente sobre ciência, psicologia, filosofia, arte e também poesia , escrever, viajar para ver exposições ou a natureza, ou ambos, ver filmes, documentários e pensar sobre tudo isto. Minha pintura é a consequência.

Na sua opinião, qual a importância social das artes plásticas?
A importância social da Arte, não apenas das artes plásticas, é estabelecer marcos civilizatórios, referencias que nos façam ver o que somos. A Arte estabelece novos paradigmas que não nos permite recuar, ela existe como uma memória indelével do que alcançamos e nos diz e reafirma que humanos é o que somos.  Sem a Arte como referencia do que somos e notícia do que podemos ainda ser, estamos nas trevas e na loucura da barbárie. Despencamos montanha abaixo de volta ao primitivo animal. E como, lamentavelmente, esta é sempre a opção mais fácil, visto que a outra exige responsabilidade e compromisso, precisamos da Arte como um náufrago precisa da visão auspiciosa de uma ilha, que lhe traz forças desconhecidas para nadar até alcançá-la.  A arte nos motiva a ser o que somos.

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