Entrevista ao jornalista Linaldo Guedes

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2013

Por que você deixou a Paraíba e resolveu investir sua carreira no sul do país?
Tenho amor à Paraíba, devo tudo o que sou ao meu lugar, ao meu chão, porem a necessidade de ampliar horizontes foi e segue sendo o condutor da minha vida. O que me move é o sentido de amplitude, o gosto por infinito. Isto não apenas literalmente considerando que o tema que corresponde à minha busca de significados é a paisagem, mas também de forma figurada. Creio que aqui cabe uma observação sobre São Paulo: São Paulo não é o sul. São Paulo é o Brasil e o mundo inteiro, tudo junto. Esta é uma cidade de imigrantes, a maior capital nordestina do país, e aqui podemos ter uma intensa experiência do diverso. São Paulo favorece e trata bem àqueles que trazem algo e oferecem este algo como contribuição, como tempero e substancia a este maravilhoso cozido étnico e cultural, aqui cada um vale aquilo o que se é. Como artista eu preciso deste reconhecimento isento, é para mim fundamental constatar que o valor do que faço existe por si mesmo. Todo imigrante busca o lugar onde possa realizar seu sonho, sua potencialidade, é isto o que eu sou, um buscador de mim mesmo. Acho que isto responde tua pergunta, não?

Como é conseguir espaço num mercado tão concorrido, como o paulista?
Se alguma fórmula existe ela consiste em manter o humor e trabalhar. O trabalho me introduziu ao mercado. Cheguei nesta cidade faz dez anos e, como todo bom FullSizeRendermigrante, com uma mão na frente outra atrás. Além do quê um ilustre desconhecido. Mas tive muita sorte, graças a Deus, e encontrei pessoas
maravilhosas que muito me ajudaram no inicio. Artistas como Aldemir Martins, Rubens Matuck, Octávio Araujo, Marcelo Grassmann que me apresentaram a seus amigos, a colecionadores, gente do meio artístico e cultural da cidade. Daí foi seguir em frente, aos poucos o trabalho foi tornando claro para a cidade quem eu era e a que eu vim. O espaço conquistado é sempre aquele que nos é merecido.

Que semelhanças e diferenças básicas você vê em seu início na Paraíba e em seu início em São Paulo?
A maior semelhança está no fato de que em ambos os casos comecei do zero. A diferença do inicio em São Paulo do meu inicio na Paraíba foi que aqui cheguei trazendo uma bagagem, porem invisível, pois ninguém conhecia meu percurso.

Você tem recebido avaliações favoráveis ao seu trabalho de nomes como Jacob Klintowitz, José Roberto Teixeira Leite, Enock Sacramento, Oscar D’Ambrosio, Mariza Bertoli entre outros. Como você vê o papel da crítica de artes plásticas no Brasil de hoje?                                            Acredito que sem a reflexão sobre a produção cultural, o dimensionamento e sua contextualização, que é o que se espera da crítica, estamos em maus lençóis. A crítica deve ser uma prática permanente, a começar pelo próprio artista em relação a si mesmo e a tudo o que o cerca. Entretanto enfrentamos uma época de compadrio, ninguém mais tem opinião, todos falam a mesma coisa de tudo e de todos numa grande orgia corporativa. Estabelecido está o mundo da sociedade de massa, o individuo está sufocado pelo rebanho que segue as normas da produção e consumo de massa onde todos são felizes sem rosto, sem qualquer responsabilidade além das contas do crediário. A crítica de arte no Brasil está sem voz, não há espaço na mídia, o que temos é noticia sobre eventos culturais e ponto. A pessoa vira noticia por algum tempo e está alcançado o seu objetivo como artista. Acho tudo isto triste porque pobre, um mundo Big brother.

Você está iniciando uma exposição – Primeira Vista, esta semana. Fale um pouco sobre mais essa mostra sua.
Trata-se de uma mostra coletiva, minha primeira inserção no mercado carioca. Já participei de coletivas e expus individualmente no Rio, mas sempre com projetos culturais, o que é a melhor forma de chegar a algum lugar. Você chega conceitualmente respaldado. O segundo passo é a galeria comercial, cujo conceito e respeitabilidade no mercado são fundamentais. É o caminho do estabelecimento do artista no cenário. Nesta mostra na galeria AMARELONEGRO, eu dou início a este segundo passo.

A poesia é um trabalho muito solitário. Como você definiria seu trabalho enquanto artista plástico e seu intercâmbio com outros artistas? 
Toda arte é poesia, poderíamos ter apenas este nome, poesia, para toda expressão que se possa chamar de arte e seria bastante. Também nos ajudaria a ver como há tão pouca poesia neste mundo artificial, enquanto na natureza ela é a própria essência… O intercambio Linaldo, tenho certeza, não é diferente para um poeta do que é para um pintor, a solidão é condição. É graças a ela que temos acesso a o outro, saiba ele ou não, solidão é a realidade ultima, o que nos faz iguais e nos aproxima. Este é o lugar comum. Meu trabalho como o de qualquer artista, a meu ver, se define por buscar encarar as coisas como elas são e tentar revelá-las por meio da forma, da linguagem. Penso que tudo isto que se costuma levar a sério como coisas da realidade objetiva, no geral não passa de fantasia, uma neurótica tentativa de ver o mundo como se deseja que ele seja. Daí tanta estupidez e loucura, tudo em nome das maiores, melhores e mais nobres verdades.

E como você vê o mercado para as artes plásticas hoje?
No Brasil nunca esteve melhor, na verdade eu diria que de quinze anos para cá o mercado de arte no Brasil passa a ser uma realidade, não mais uma atividade amadora, isto é, uma atividade feita por paixão, mas sem lastro comercial sustentável. Isto se inicia com a entrada dos artistas brasileiros no mercado internacional, consequência direta do crescimento do país em importância global.
Que influências são mais acentuadas em sua obra?
Muitas e cada uma há seu tempo. Porem hoje eu identifico uma base que, por todo tempo, tem servido de apoio e norte a minha busca, esta base é constituída por três pilares: A Física, a Psicologia e o pensamento romântico e filosófico alemão. Esta tríade compõe o ângulo do qual eu observo o mundo.

Como você avalia outras tendências da arte contemporânea, como as instalações, por exemplo?
Não apenas válidas como perfeitamente adequadas às demandas da nossa época onde a expressão pede liberdade de meios, na mesma escala em que o homem clama por significados.

Olhando de longe, como você vê o potencial artístico da Paraíba nesta área?
Realmente é olhar de longe, visto que não tenho informação da produção contemporânea na Paraíba, mas anoto o que se destaca alem fronteiras. José Rufino é, para mim, um dos mais importantes artistas brasileiros da atualidade, um artista que fala com o mundo porque fala de si mesmo.

Jacob Klintowitz destacou que o desenho em sua obra é elaborado com requintes de sombras e luzes nuançadas e marcado por uma precisão detalhista que, numa época de mensagens instantâneas, surpreende. Qual a principal característica de sua obra? 
O crítico observa um aspecto da minha obra e situa este aspecto frente à época. Neste caso, não o aspecto, mas o contexto diz da principal característica da minha obra: uma reação ao banal, ao vulgar, ao instantâneo, enfim uma postura contrária à massificação, situação que vem nos conduzindo a autodestruição.

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Que tela sua colocaria como clássica, ou a que mais mexe com você?
A paisagem continua sendo seu tema maior? A paisagem é o meu tema maior, não a paisagem de um lugar específico, esta não me diz respeito. Para mim a paisagem é uma metáfora, um paradoxo, antes um estado, este sim específico. A paisagem me habita, eu habito a paisagem, eu pertenço a ela, ela me pertence. Aqui se dá o encontro, o sentido de pertencimento a algo, a um lugar e a descoberta que este algo, este lugar sou eu. Não tenho como eleger uma pintura minha como clássica, cada uma delas é parte de um mapa, talvez alguma delas seja uma montanha, ou um oceano, e esta terá naturalmente mais destaque no mapa. Entretanto não haveria montanhas ou mares se nos faltasse no mundo um único grão de areia. Não podemos perder isto de vista.

Blue landscape - 2012 - oil on canvas - 51.2 X 70.9 in - Paisagem azul - 2012 - óleo sobre tela - 130 X 180 cm

Qual o futuro das artes plásticas?
O que está por vir? Esta pergunta deve ter resposta idêntica àquela que indaga qual o futuro da humanidade, o que está por vir?
Quando teremos uma mostra sua na Paraíba? Isto permanece uma incógnita, deveria ter ocorrido ano passado na Usina Cultural Energisa, fui convidado para expor lá pelo projeto Prêmio Energisa de Artes Visuais, o Rufino expôs, outros artistas expuseram, mas quando da minha vez as coisas não foram à frente. Não sei o que dizer, os fatos dizem de si mesmos. Espero que não tarde o dia em que possa levar minha pintura à minha terra.

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