Entrevista ao jornalista Márcio Fonseca

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Abril de 2013

Sergio, você nasceu e cresceu em João Pessoa, casou-se e foi morar numa comunidade alternativa na Chapada de Guimarães e foi estudar pintura em Berlim, como foram esses ritos de passagem?
Minha vida nunca foi um plano consciente, as coisas foram acontecendo e aos poucos descobri o que eu sou, sou um pintor. Hoje percebo que por todo o tempo segui e continuo seguindo um mapa, uma espécie de mapa da alma. Se antes eu o seguia sem saber hoje sei que o sigo, ainda que não saiba para onde ele me leva nem o que me espera adiante. Tudo é mistério, a diferença está na aceitação consciente do caminho. O grande rito de passagem, aquele que reuni as qualidades que compõe a natureza de todos os ritos, se dá quando aceito o que me traz a vida. Este é o principio, o meio e o fim.

Quando você começou na arte, depois dos estudos em Berlim qual foi sua formação em arte?
Minha formação se inicia no ateliê do artista Flávio Tavares. Conheci Flávio quando tinha dezessete anos, sua generosidade me permitiu frequentar seu ateliê durante cinco anos, ele me iniciou na arte. Nunca tive acesso a uma educação formal em arte. Mesmo quando ganhei bolsa para ir viver em Berlim, foi para uma experiência de intercambio com alguns artistas alemães. Lá frequentei os museus, o meio artístico, os ateliês e as discussões numa rica troca de experiências. Minha grande formação foi a vida e os livros, aqueles de arte, poucos e raros que na juventude me caiam às mãos, e, claro, os livros de ciência, literatura e poesia. Os mestres me ensinaram a distancia. Ensinaram-me o fundamental. Com eles eu aprendi que a arte e a vida são uma só coisa.

blog1 A Entrega da Coroa à República, da série A Divina Comédia, Sérgio Lucena e Flávio Tavares

Que artistas influenciam seu pensamento?
No campo das artes visuais, atualmente, cito cinco artistas que muito dizem sobre minha busca. Gerhard Richter, Mark Rothko, Anish Kapoor, Olafur Eliasson e James Turrell. Entretanto é importante salientar que se hoje estes artistas são referência para mim, se tenho acesso aos valores que eles trazem ao mundo, isto se deve ao caminho iluminado pelos muitos grandes artistas, místicos, cientistas e pensadores que amo e que, em dado momento, deram significado a minha vida. Eu sou a soma de tudo o que mobiliza minha atenção.

Como você descreve sua obra?
Minha obra não pode ser definida ainda, está em processo. Algum dia adiante se algo ela houver trazido de significativo, isto a definirá.
Posso apenas dizer que se trata de um movimento natural e instintivo na direção oposta ao que vejo como um caminho alienado e autodestrutivo, conhecido por sociedade de massa.
A eliminação do indivíduo em favor de um ser sem consciência de identidade, um zumbi a serviço do modelo de produção e consumo industrial de massa, modelo que despreza a natureza e dela nos afasta, eu não aceito. Nada de bom pode vir disto, não é humano, é contrário à vida e a arte.

Por favor, fale sobre as mídias e os assuntos discutidos.
Arte é o meu assunto e sua discussão perdeu espaço na mídia tradicional, não há mais lugar para a reflexão, para a crítica de arte nos meios tradicionais de comunicação, os jornais e as revistas. A reflexão foi gradualmente substituída pela propaganda de eventos culturais. Compreensível, assim é que se dá a implantação do processo de destituição do pensamento de opinião em favor da unanimidade, do gosto comum tão adequado ao consumo de massa. Existem algumas poucas revistas especializadas, mas mesmo estas, com raras exceções, parecem ter um discurso combinado. No geral trazem um texto que não se compromete com nada, que descreve numa linguagem hermética a obra e o artista em questão, mas sem emitir qualquer opinião, sem dizer a que veio nem como se situa no contexto. Não vejo paixão, não vejo comprometimento apenas corporativismo. Isto está acontecendo em todas as áreas, de maneira que acho que a discussão de opinião hoje acontece no paralelo, por meio dos blogs e outras iniciativas na internet.

O que é ser um pintor no século XXI?
Você Márcio, é médico. Diga-me, o que é ser um médico no século XXI? Para mim a única coisa que mudou, e seguirá mudando, é que as possibilidades de expressão assim como as possibilidades tecnológicas são maiores.
Tanto para o pintor como para o médico, o compromisso com sua própria consciência implica hoje nas mesmas questões com as quais se deparava o artista das cavernas, ou o curandeiro.
Estou nesta vida de artista pintor a mais de trinta anos e nunca dei ouvidos para aquele papo que a pintura morreu. Claro que sinto o impacto desta falácia que seria apenas tolice se, no mais das vezes, não se tratasse de má fé.
Pergunto, qual o porquê desta discussão sobre as mídias, os suportes, a constante depreciação de umas em favor de outras, quando a única questão em jogo é o valor, o significado do que está sendo dito? Diante uma expressão de arte a questão é: isto diz respeito ao que nós estamos vivenciando, isto está a nos preparar para o porvir ?? É disto que, definitivamente, temos que tratar.

Você trabalha no Brasil e na Europa e Estados Unidos, que diferença você percebe?
Em muitas coisas o Brasil está evoluindo, mas algumas coisas parecem teimar em continuar como d’antes. No campo da arte podemos notar algo que reflete, ainda, muito do nosso subdesenvolvimento. Diferente de países com identidade mais sólida, no Brasil há um empenho por demolir toda tradição em favor de uma suposta postura contemporânea. Temos de estar em acordo com o ultimo grito da moda, o que para mim só denuncia um mal resolvido sentimento de inferioridade.
Mas não sou pessimista. Creio que, aos poucos, as coisas estão mudando. Neste mundo atônito, guiado por um modelo econômico insustentável e sem respostas ao seu acelerado declínio, o Brasil se vê diante a oportunidade de se afirmar como uma alternativa ao velho padrão. Se vamos conseguir é uma incógnita, ainda. Mas o fato é que cada vez mais surgem artistas alheios às imposturas externas e internas cujo objetivo é puramente colonizador. Em todo o país algo acontece do grafite a musica da periferia, do cinema ao mangue beat, muita coisa intensa e com identidade. Em reação a isto alguns tentam disseminar a ideia de que esta postura é perigosa, é nacionalista, um retrocesso ao pitoresco, ao regional, ao folclórico, o que eu discordo. Definitivamente não é isto o que acontece nem tão pouco é disto que estou falando, parafraseando o Samuel Johnson, acho que o nacionalismo é o ultimo refugio do canalha. Refiro-me à voz própria, condição sine qua non à nossa efetiva participação num cenário global.
Repare que diante a obra do Anselm Kiefer você se depara com uma expressão universal, a qual, por sua vez, não abdica da sua aldeia. Diga-me, o que, sendo cósmico, pode ser mais alemão que Anselm Kiefer?
No Brasil, agora, e isto é o que me anima, vejo o florescimento de uma geração que se destaca por afirmar sua identidade. Não são frutos do acaso, mas de um legado que não foi esquecido. Cito dentre vários a Adriana Varejão, o Luiz Hermano, a Beatriz Milhazes, o Waltércio Caldas, o Luiz Zerbini. Eles nos alertam que sem alma não somos nada, que é preciso cantar alto nossa própria canção.

Como você vê o mercado de arte no Brasil?
Ao que parece, de quinze anos para cá, começa a se profissionalizar e a existir como uma realidade. Acho que não tem perigo de retroagir, ao contrario, tende a se afirmar e a expandir. As feiras de arte em São Paulo e no Rio refletem isto, uma consequência direta ao crescimento do país em importância global.

Qual a importância de sua formação em Física Quântica e Psicologia no seu trabalho?
Não posso dizer que tenho formação nestas áreas do conhecimento, abandonei ambos os cursos sem concluí-los, mas nunca abandonei meu interesse nos temas e segui estudando-os de forma livre. A Física e a Psicologia, somadas ao meu interesse por tudo o que é humano compõem a substancia da minha pintura. Estes interesses não existem separados, eles são complementares, atuam em uníssono e me falam do que existe por trás das representações. Minha pintura como toda arte é apenas representação, um dedo que aponta para algo. Quem puder ver a representação verá, em si mesmo, aquilo que é representado.

Qual o significado de sua premiação pela ABCA com o Prêmio Mário Pedroza, 2011?
Fui indicado ao Prêmio Mário Pedrosa para artista contemporâneo da ABCA, Associação Brasileira de Críticos de Arte, pela crítica Mariza Bertoli, em razão da minha atuação em 2011, com exposições em Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. Não tinha contato com a Mariza até então, o que me agradou muito dado à isenção da indicação. Dos vários artistas indicados por vários outros críticos três foram escolhidos para concorrer ao prêmio, a Lenora de Barros, o Nelson Felix e eu. Houve então uma votação nacional dos críticos do país e por fim eu fui o escolhido. O significado disto não diz respeito a uma competição, foi uma honra imensa estar ao lado de artistas deste naipe, para mim isto já era o prêmio. O que se deu foi o reconhecimento de um trabalho que fora gestado e desenvolvido durante mais de dez anos, e que pôde vir ao mundo de forma intensa e ampla naquele ano de 2011.

Que sugestão você daria a um jovem artista para alcançar o sucesso?
Há um livro que recomendo a todos, especialmente àqueles que pensam em seguir uma atividade artística, chama-se Cartas a um Jovem Poeta, do poeta Rainer Maria Rilke. Nele está dado o único conselho possível a um artista.

Você está num novo e elogiado ateliê em São Paulo, o que isso representa para você?
Representa luz e espaço. As condições físicas adequadas à demanda da minha pintura. Algo pelo quê agradeço aos Deuses terem me propiciado.

Quais são seus planos para o futuro?
Meu futuro é a próxima pintura, aguardo ansiosamente o direito de alcançá-la e realizá-la a contento.

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