Entrevista ao jornalista Ricardo Anisio

Painting N°12 - 2010 - oil on canvas - 55.1 X 55.1 in - Pintura N°12 - 2010 -              óleo sobre tela - 140 X 140 cm

2011

O que te fez decidir deixar a Paraíba e investir na sua carreira, no Sul do país?
Meu caro amigo Ricardo você é um poeta e, portanto sabe bem o que do artista a arte exige: tudo, incondicionalmente. Vir para São Paulo teve como premissa atender a esta demanda.
Demanda por dialogo, demanda por referencias, por parâmetros, a busca natural do artista por realizar seu caminho, seu destino. O contato com um mundo ampliado dimensiona o que você é, lhe coloca em perspectiva e lhe dá a medida de si, isto é fundamental para a autoconsciência.

O artista deve se capacitar para servir ao propósito da arte, este é o propósito da minha vida, o único investimento ao qual devoto minha vida hoje, assim como fora antes e certamente será até o fim.
Eu sou artista e minha forma de expressão é a pintura, fazer pintura é exatamente o que eu vim fazer neste mundo, de maneira que onde as condições forem favoráveis a este propósito lá eu estarei.

Quando chegou a São Paulo você tinha convicção de que conseguiria obter sucesso em um mercado tão disputado?
Minha convicção era, àquela altura, a mesma que tenho hoje. A de que eu tenho que dizer a que eu vim. Eu nunca planejei objetivamente nada em minha vida, porem sempre fiz tudo com a verdade do coração. Para muitos, e por vezes até para mim, minhas atitudes tinham e tem algo de temerário, arriscar tudo, largar o certo pelo incerto, porem de certo só tenho noticia da morte. De maneira que cedo compreendi que viver é incerto. Não há certezas como lembra o Fernando Pessoa citando uma máxima dos antigos navegantes Portugueses “navegar é preciso, viver FullSizeRendernão é preciso”. A arte em nada difere da vida, a vida imita a arte disse o Oscar Wilde, eu digo que não há imitação, vida e arte são uma e só coisa. Neste sentido meu caro amigo, o que chamas de sucesso é o reconhecimento do mundo a uma verdade, e você está certo quando diz obter sucesso, pois eis que se sucede o esperado: eu realizo o que de mim a arte espera. O mundo tem uma profunda demanda por significado, isto é o que o move e o impulsiona a evoluir, o artista, quando espiritualmente alinhado com o desejo do cosmos, formaliza o símbolo desta demanda. Cria o acesso ao significado da época. Isto é a obra de arte, a verdadeira riqueza e razão de ser do artista. O que implica numa coisa essencial que é não confundir a verdadeira riqueza com os símbolos da riqueza.
O sucesso para o artista, portanto consiste em ser o que ele é e realizar o que lhe cabe: servir. O mais, todo ele, é pura e mera conseqüência disto.

Você esperava que a crítica sulista absorvesse bem a sua proposta artística?
Tenho recebido a atenção de importantes críticos do país, José Neistein, Jacob Klintowitz, José Roberto Teixeira Leite, Enock Sacramento, Oscar D’Ambrosio, Alberto Beuttemüller entre outros. Tenho tido o privilegio de uma rica interlocução do mais alto padrão com pensadores da cultura, não apenas críticos, mas também, e de forma muito especial com artistas, poetas… Sim meu amigo, eu esperava por isto, este sempre foi o meu sonho. Um ambiente cultural onde os valores estéticos e espirituais fossem a moeda de interesse, é disto o que hoje desfruto como de uma graça divina.

Qual foi o momento mais difícil na sua adaptação ao novo mercado?
A distancia dos meus três filhos, Diego, Daniel e Sarah foi o mais difícil, porem a consciência que minha busca seria o meu legado para eles, aquilo o que eles poderiam ter como referencia do pai, isto permitiu que eu tivesse forças e soubesse manter o humor. Manter o humor sempre foi à chave para seguir em frente. Fazem parte do caminho as humilhações, a incompreensão, a privação, se não mantemos o humor não há como atravessar a noite escura. Hoje vejo tudo com ainda mais clareza, o caminho faz o artista.

Tem algum projeto (mostra etc.) em fase de execução?
Sim há um grande projeto em curso envolvendo exposição e livro em torno de um trabalho que venho desenvolvendo desde 2007 e que ainda não está concluído, portanto não há nada definido no que tange a datas.

Desde que você se mudou expôs poucas vezes na Paraíba. A que se deve isso? – Tem planos para alguma mostra na sua terra-natal?
Na verdade desde que saí não mais expus na minha terra. E isto se deve a um contexto que envolve vários fatores. O mercado na Paraíba, ao que parece ainda não se consolidou a ponto de investir nos seus artistas, restando, portanto apenas o poder público como fomentador cultural. De maneira que é preciso, primeiro, que o poder público tenha a dimensão da importância dos seus artistas como valor institucional para o Estado. Para que isto ocorra há de existir uma consciência e um interesse maior que compreenda, por exemplo, os custos de uma exposição como um desafio a ser resolvido, não como um impedimento. Creio que isto se resolverá quando se mostrar importante para o poder público o fato que a cultura é o que dimensiona um povo e o seu lugar. Isto não um problema apenas da Paraíba, é do país como um todo porem, em alguns lugares vemos que há um maior entendimento do papel da cultura, Pernambuco, Bahia, Rio Grande do Sul, e naturalmente Rio e São Paulo são exemplos, mas ainda há muito que evoluir. Uma exposição na minha terra para mim tem muita importância, quando chegar a hora quero dar o melhor de mim. Recentemente tive uma grande alegria com o anuncio de convite por parte da Cleide Barros que comanda a Usina Cultural, o centro cultural da Energisa, de realizar uma mostra minha na cidade, torço muito que tudo dê certo.

Como definiria a atual fase de sua obra?
Um enigma, um momento onde nada do que conheço pode me ajudar, creio que chegou a hora de eu iniciar aquilo para o que me preparei a vida inteira.

Como os artistas paraibanos são avaliados por aí?
Temos grandes nomes que dão peso à participação da Paraíba no cenário nacional, entretanto percebo que esta questão da origem vai perdendo cada vez mais seu significado e importância. Quando vemos o paraibano Antonio Dias afirmar ser de lugar nenhum, creio que ele aponta de forma muito lúcida uma nova percepção de origem. O mundo embora ainda sustente suas fronteiras imaginarias é cada vez menos feito de países, raças, credos. Estamos no limiar de uma nova consciência, a de que somos parte integrada e não isolada do universo. As características regionais são um sabor, mas não devem ser uma premissa ou imposição estética, como sabor enriquece o universo, como credo são expressões isoladas num contexto que pouco comunica e pouco contribui com o outro, e naturalmente não se beneficia do outro.

Tive a honra de tê-lo como autor de um dos meus livros de poemas. Aquela fase de sua carreira ainda respinga nas obras de hoje?
Eu diria que sim, especialmente no que de mágico e profundamente espiritual aquela fase continha, a diferença é que a magia e a espiritualidade em minha pintura hoje se valem mais da matéria, da cor e da luz que da narrativa.

Você acompanha o movimento artístico paraibano?
Confesso que menos que gostaria.

Quais os artistas aqui da Paraíba que lhe chamam a atenção?
Não posso deixar de começar pelo meu mestre Flavio Tavares, um dos mais sofisticados desenhista que já conheci. Um artista verdadeiro. Gostaria de saber mais da nova produção, dos novos talentos, mas como já disse tenho pouca informação, de maneira que fico com as referencias da minha geração, a linda Alice Vinagre, o Zé Rufino que para mim traz algo muito especial, o Pagano, o Fred Svendsen, o Carlos Djalma e como não deixar de lembrar a escultura mítica do Miguel dos Santos. Mas existem outros, adoro a pintura do Alexandre Filho por exemplo.

Em que escola a sua obra recente se encaixa?
Complicada esta pergunta, a idéia de escola me soa sempre reducionista, porem para não deixar de responder eu diria que sou um paisagista abstrato ou metafísico.

Fale-nos de seus projetos mais recentes. O que tem pela frente?
O projeto em curso é esta grande mostra em Salvador da minha serie de pinturas marinhas, que tem a curadoria da Claudia Lopez e a apresentação do critico Enock Sacramento. Pela frente, e já em andamento, uma bela parceria com a minha galerista Lourdina Jean Rabieh de representação e intercambio junto a importantes galerias dentro e fora do país.

Como avalia esse momento da arte brasileira?
Muito auspicioso, o Brasil é claramente hoje um país de interesse mundial e a arte não fica fora desta nova realidade. A feira internacional de arte de São Paulo é uma força estabelecida, artistas brasileiros passam a integrar o mercado internacional com muita vitalidade, algo que não existia até a década de 90, ou seja, ontem. Galerias novas surgem a cada dia, eu francamente não lembro um momento tão forte e promissor.

Quais os artistas nacionais que mais têm lhe encantado?
São muitos, tenho observado um grande numero de artistas significativos, mas, como pintor que sou não consigo me abster da minha predileção em arte que é a pintura, neste campo um me chama especial atenção. O pintor Paulo Pasta.

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