Horizonte Comum

Blue Contemplation - 2014 - oil on canvas - 76.77 X 76.77 in - Contemplacao Azul - 2014 - óleo sobre tela - 195 X 195 cm

Julia Pereira Lima
2014

“A pintura catalisa um estado”: é assim que Sergio Lucena descreve sua prática artística. Estar frente a uma de suas telas torna-se uma experiência, mexe com o corpo, com a mente. É possível ser transportado para os mais distintos lugares, estados de espírito, de consciência. A cor, a luz e o volume da tinta envolvem o espectador numa atmosfera subjetiva e transformadora, que oferece uma possibilidade de mergulhar e envolver-se em si e em uma nova percepção da realidade, na paisagem, no lugar. Enfrentar esse mergulho é paradoxal, pois ao mesmo tempo em que surgem lembranças e experiências passadas, também nos aponta novos e desconhecidos lugares.

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IN MY BEGINNING IS MY END IN MY END IS MY BEGINNING

Entrevista com Sergio Lucena – W. J. Solha

WJS – Sergio, tive um impacto extraordinário, ao ver pela primeira vez uma tela sua, pela poderosa densidade daquele navio a vapor, naquele estranho mar. O quadro estava na entrada da Funjope (Fundação Cultural João Pessoa) , atrás da secretária em seu birô, e a ela pedi seu telefone e, ali mesmo, sem conhecê-lo, o parabenizei. Depois, numa mostra sua no NAC (Núcleo de Arte Contemporânea da UFPB), foi a vez de me impressionar fortemente com um Van Gogh, seu, fumando cachimbo, na agonia, ante o irmão Theo, e com um fortíssimo Vox Clamantis in Deserto. Em seguida vi um trabalho seu a quatro mãos com o Flávio Tavares – A Pedra do Reino, lá na Funesc (Fundação Espaço Cultural da Paraíba). Você tinha, já, noção do seu potencial enorme?

SL – Quem pode saber de si antes de Ser? Nunca me imaginei artista. Isso até os dezessete anos, quando tive o privilégio de conhecer Flávio Tavares, de entrar em seu ateliê e de ver, pela primeira vez, algo que respondia à falta de significado que me habitava. Naquele momento não me imaginei, eu me soube artista. Nasci algumas vezes nesta vida, mas, esse dia tenho como a minha data oficial. Em verdade, o potencial ao qual te referes tem seu fundamento no sertão da Paraíba, onde tive a felicidade de viver parte da infância. Lá, vivi o mundo como ele é, não como julgamos que deva ser. O mundo silencioso e perene, cujo poder e dimensão situaram-me corretamente na vida. Por certo o impacto causado pela vastidão seca da caatinga soprada pelo vento, o mundo natural onde as pessoas eram para mim a extensão dessa realidade, deram-me o sentido de valor e significado que formaram o alicerce do que sou. A realidade, na sua real potência, é aquela que dá noticia do intangível por meio do que está ao alcance da mão, ao alcance dos olhos e do olfato, aquela que você escuta… O artista se fez quando reencontrei o tesouro esquecido, e foi a pintura que me devolveu o sertão que eu sou.

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Entrevista a Mariana Abreu Sodré

My visible silence - 2015 - oil on canvas - 59.1 X 59.1 in - Meu visivel silencio - óleo sobre tela - 180 X 140 cm

10 de maio de 2014

O senhor diz na apresentação da série que UM LUGAR COMUM é o retorno da paisagem como tema. De quanto tempo e como foi esse intervalo? Por que aconteceu o intervalo e o que o motivou a retornar ao tema?
Se considerarmos a ideia do retorno sob o prisma mítico as coisas assumem sua exata dimensão. Tomemos a parábola da volta do filho pródigo, ele pede sua parte da herança paterna e sai em busca de conhecer o mundo, já seu irmão fica trabalhando ao lado do pai na fazenda. Tempos depois ele retorna tendo gasto toda sua herança e o pai lhe oferece um banquete em celebração. O irmão que ficara não compreende e questiona o pai, porque ele que estivera todo este tempo ao seu lado ajudando-o nunca merecera um banquete? Ao que o pai responde, seu irmão voltou, ele reconheceu o seu lugar. Este evento ocorre inúmeras vezes na vida de cada pessoa, e na pintura as coisas acontecem exatamente como na vida.
Quando deixei meu lugar, quando sai da minha terra não imaginava que a razão da minha busca não era bem aquela que eu na época acreditava. Saí para conhecer o mundo, ver outras paisagens, sentir outros cheiros, ouvir outras vozes e músicas, conhecer novas culturas outros climas, tudo isto eu vivi e vivendo percebi que quanto mais distante eu ia mais próximo de mim eu estava. Minha terra, meu mundo, minha gente, eu mesmo, tudo foi acontecendo. O diferente espelha o igual, me vi no outro e comecei a sentir o lugar onde eu sou.
Esta nova série de pinturas é fruto de um longo e profundo mergulho durante o qual, sem o saber, busquei consolidar a atmosfera própria à minha paisagem.  Neste período, que durou cinco anos, meu objetivo era alcançar uma pintura capaz de se sustentar a partir de seus valores essenciais: matéria, luz e cor.  Foi um período de experiência abstrata que dei o nome de Enigma, batizando algo que justamente eu desconhecia na época. A esfinge que me impôs o enigma foi o grande mestre russo americano Mark Rothko.  Ele me falava de algo muito fundo em mim, algo que eu devia clarificar para poder atualizar a minha voz.
Em 2013, em um novo ateliê amplo e iluminado pela luz solar, as coisas clarearam e a atmosfera tão buscada deu noticia. É o retorno à paisagem que vem acontecendo muitas vezes no limite do reconhecível, sugerindo uma realidade ampliada: a correspondência entre a realidade interior e o mundo exterior. Este lugar no qual se reúnem as coisas é o que me interessa.
Chamei este momento de Um Lugar Comum, pois me fala de uma síntese, um lugar que é tudo, mas é um, um lugar de comunhão, de pertencimento, Com Um.

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Entrevista ao jornalista Guilherme Cabral

The deep sleep of beauty 2014 - oil on canvas - 78.74 X 59.05 in - O profundo sono da beleza - 2014 - óleo sobre tela - 200 X 150 cm

11 de novembro de 2013

O que você está fazendo, hoje? Ou seja, está com alguma exposição aberta? Em caso positivo, dê detalhes sobre ela e onde acontece e até quando vai?
Estou desenvolvendo uma serie de pinturas de paisagens. Elas são a primeira notícia que trago de um mergulho que durou cinco anos onde pude resignificar minha pintura. Neste período que vai de 2007 a 2012 a necessidade era uma pintura que fosse capaz de se sustentar pelos seus próprios valores pictóricos, sem qualquer auxilio da forma conhecida a minha pintura abdicou da referência objetiva.  A busca era por alcançar o clima e a atmosfera próprios da minha pintura, algo inteiramente fiel ao que sou. Gradualmente fui compensando a ausência da forma narrativa com uma cor cada vez mais complexa e sofisticada, porem de resultado sutil, uma pintura silenciosa e de aparente simplicidade. Este período abstrato eu chamei de Ænigma.  Minha pintura de paisagem atual é fruto deste momento, resulta naquilo que tanto esperei, pelo que tanto me empenhei…  Esta nova serie eu chamo de Um Lugar Comum.

Já antecipando, qual(is) o(s) projeto(s) que você pretende realizar? O que será e para quando?
Estamos em curso com alguns projetos concomitantes, um livro e uma mostra que deverão acontecer no próximo ano.  O livro abordará meu trabalho atual situando-o a partir do meu percurso. A mostra será basicamente da serie atual, porem contando com obras da serie Ænigma que participarão como referencia e respaldo à atual pintura. A curadoria da mostra é da Julia Pereira Lima e o texto do livro do curador Alberto Saraiva, além de um texto do meu galerista Renato De Cara e um outro meu.  Uma boa notícia é que minha nova galeria, a MEZANINO, http://www.galeriamezanino.com vai estar apresentando agora em 03 de Dezembro um prewiew de dez obras da minha nova serie de pinturas na Brazil Art Fair, a primeira feira internacional de galerias brasileiras que acontecerá em Miami paralela à Miami Art Basel.

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O artista muda a alma de casa.

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Mariza Bertoli
Visita ao novo ateliê do artista em 23 de janeiro de 2013

Quando Sergio Lucena me disse que estava em novo ateliê pensei comigo – é muito difícil mudar com todos os materiais, as referências, o acervo…e não se pode esquecer os fantasmas. É quase um ritual de passagem, uma espécie de transmigração. Lembrei do verso de Mario Quintana a propósito do amor: “Amar é mudar a alma de casa”. A casa do artista é o ateliê. E aquele ateliê no sobrado da rua Artur de Azevedo , em Pinheiros, estava tão batizado, com suas cidadelas simbólicas, os guardiões na porta e, no alto da escada, São Miguel mantinha o diabo dominado. O retrato do amigo Aldemir Martins instalado como em um altar, entre esculturas, com seu sorriso enigmático era mais que uma pintura, um anjo-da- guarda. Cada objeto parecia em seu lugar, mas a própria pintura, a fase atual do artista – que eu chamei O Vão estava a exigir a distância para o olhar. Era necessário afastar-se para ver, já que o momento do envolvimento em uma pintura dita abstrata é uma vivência tão forte, que é quase um engolimento. Foram sete anos, naquele espaço, povoado de presenças simbólicas, emergindo em estações imaginárias fantásticas, com desfiles fabulares de personagens encantadas e criaturas surpreendentes, imagens confessionais e premonitórias. O espaço tinha se tornado pequeno para a série Ænigma.

Painting N°19 - 2012 - oil on canvas - 59 X 59 in - Pintura N°19 - 2012 - óleo sobre tela - 180 X 180 cm

Faz um ano que visitei pela primeira vez o ateliê de Sergio Lucena, artista que venceu o Prêmio Mario Pedrosa 2011, da ABCA. Confirmei o que havia visto nas suas exposições – a força do artista consciente da tarefa inelutável de criar visualidades, trazer à luz a imagem do desejo, do indefinível. Enfrentar o “o mal – estar da cultura”, assumindo seus riscos e revelações.

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Entrevista ao jornalista Linaldo Guedes

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2013

Por que você deixou a Paraíba e resolveu investir sua carreira no sul do país?
Tenho amor à Paraíba, devo tudo o que sou ao meu lugar, ao meu chão, porem a necessidade de ampliar horizontes foi e segue sendo o condutor da minha vida. O que me move é o sentido de amplitude, o gosto por infinito. Isto não apenas literalmente considerando que o tema que corresponde à minha busca de significados é a paisagem, mas também de forma figurada. Creio que aqui cabe uma observação sobre São Paulo: São Paulo não é o sul. São Paulo é o Brasil e o mundo inteiro, tudo junto. Esta é uma cidade de imigrantes, a maior capital nordestina do país, e aqui podemos ter uma intensa experiência do diverso. São Paulo favorece e trata bem àqueles que trazem algo e oferecem este algo como contribuição, como tempero e substancia a este maravilhoso cozido étnico e cultural, aqui cada um vale aquilo o que se é. Como artista eu preciso deste reconhecimento isento, é para mim fundamental constatar que o valor do que faço existe por si mesmo. Todo imigrante busca o lugar onde possa realizar seu sonho, sua potencialidade, é isto o que eu sou, um buscador de mim mesmo. Acho que isto responde tua pergunta, não?

Como é conseguir espaço num mercado tão concorrido, como o paulista?
Se alguma fórmula existe ela consiste em manter o humor e trabalhar. O trabalho me introduziu ao mercado. Cheguei nesta cidade faz dez anos e, como todo bom FullSizeRendermigrante, com uma mão na frente outra atrás. Além do quê um ilustre desconhecido. Mas tive muita sorte, graças a Deus, e encontrei pessoas
maravilhosas que muito me ajudaram no inicio. Artistas como Aldemir Martins, Rubens Matuck, Octávio Araujo, Marcelo Grassmann que me apresentaram a seus amigos, a colecionadores, gente do meio artístico e cultural da cidade. Daí foi seguir em frente, aos poucos o trabalho foi tornando claro para a cidade quem eu era e a que eu vim. O espaço conquistado é sempre aquele que nos é merecido.

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La piel del Color

Painting Landscape N 01- 2015 - oil on canvas - 39.4 X 27.6 in - Pintura Paisagem N 01 - 2015 - óleo sobre tela - 100 X 70 cm

Antonio Ventura
2013

Un azul que se convierte en violeta.

Un rojo que se trasforma en naranja.

Un amarillo que deviene en verde.

Los colores conversan en un diálogo que contiene el silencio.

Una música de acordes sucesivos, pautados, armónicos se escenifica en un ámbito que produce una atmósfera en envuelve al visitante.

Aquí, no hay formas, no existen estructuras a las que asirse.

La mirada, necesariamente, ha de deslizarse por los colores que esperan y acogen la mirada del observador.

La musica que producen llega de manera nítida al espectador. Éste, solo debe permancer atento a las vibraciones de tono, de intensidad, de saturación.

No hay contrastes. Al contrario que en el jazz, las notas sincopadas están ausentes, pero la melodía discurse de forma armónica ante la mirada del viajero.

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