Horizonte Comum

Blue Contemplation - 2014 - oil on canvas - 76.77 X 76.77 in - Contemplacao Azul - 2014 - óleo sobre tela - 195 X 195 cm

Julia Pereira Lima
2014

“A pintura catalisa um estado”: é assim que Sergio Lucena descreve sua prática artística. Estar frente a uma de suas telas torna-se uma experiência, mexe com o corpo, com a mente. É possível ser transportado para os mais distintos lugares, estados de espírito, de consciência. A cor, a luz e o volume da tinta envolvem o espectador numa atmosfera subjetiva e transformadora, que oferece uma possibilidade de mergulhar e envolver-se em si e em uma nova percepção da realidade, na paisagem, no lugar. Enfrentar esse mergulho é paradoxal, pois ao mesmo tempo em que surgem lembranças e experiências passadas, também nos aponta novos e desconhecidos lugares.

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O artista muda a alma de casa.

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Mariza Bertoli
Visita ao novo ateliê do artista em 23 de janeiro de 2013

Quando Sergio Lucena me disse que estava em novo ateliê pensei comigo – é muito difícil mudar com todos os materiais, as referências, o acervo…e não se pode esquecer os fantasmas. É quase um ritual de passagem, uma espécie de transmigração. Lembrei do verso de Mario Quintana a propósito do amor: “Amar é mudar a alma de casa”. A casa do artista é o ateliê. E aquele ateliê no sobrado da rua Artur de Azevedo , em Pinheiros, estava tão batizado, com suas cidadelas simbólicas, os guardiões na porta e, no alto da escada, São Miguel mantinha o diabo dominado. O retrato do amigo Aldemir Martins instalado como em um altar, entre esculturas, com seu sorriso enigmático era mais que uma pintura, um anjo-da- guarda. Cada objeto parecia em seu lugar, mas a própria pintura, a fase atual do artista – que eu chamei O Vão estava a exigir a distância para o olhar. Era necessário afastar-se para ver, já que o momento do envolvimento em uma pintura dita abstrata é uma vivência tão forte, que é quase um engolimento. Foram sete anos, naquele espaço, povoado de presenças simbólicas, emergindo em estações imaginárias fantásticas, com desfiles fabulares de personagens encantadas e criaturas surpreendentes, imagens confessionais e premonitórias. O espaço tinha se tornado pequeno para a série Ænigma.

Painting N°19 - 2012 - oil on canvas - 59 X 59 in - Pintura N°19 - 2012 - óleo sobre tela - 180 X 180 cm

Faz um ano que visitei pela primeira vez o ateliê de Sergio Lucena, artista que venceu o Prêmio Mario Pedrosa 2011, da ABCA. Confirmei o que havia visto nas suas exposições – a força do artista consciente da tarefa inelutável de criar visualidades, trazer à luz a imagem do desejo, do indefinível. Enfrentar o “o mal – estar da cultura”, assumindo seus riscos e revelações.

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La piel del Color

Painting Landscape N 01- 2015 - oil on canvas - 39.4 X 27.6 in - Pintura Paisagem N 01 - 2015 - óleo sobre tela - 100 X 70 cm

Antonio Ventura
2013

Un azul que se convierte en violeta.

Un rojo que se trasforma en naranja.

Un amarillo que deviene en verde.

Los colores conversan en un diálogo que contiene el silencio.

Una música de acordes sucesivos, pautados, armónicos se escenifica en un ámbito que produce una atmósfera en envuelve al visitante.

Aquí, no hay formas, no existen estructuras a las que asirse.

La mirada, necesariamente, ha de deslizarse por los colores que esperan y acogen la mirada del observador.

La musica que producen llega de manera nítida al espectador. Éste, solo debe permancer atento a las vibraciones de tono, de intensidad, de saturación.

No hay contrastes. Al contrario que en el jazz, las notas sincopadas están ausentes, pero la melodía discurse de forma armónica ante la mirada del viajero.

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Aenigma Lucens – Fenomenologia de uma série de pinturas

Painting N°05 - 2008-2009 - oil on canvas - 78.7 X 78.7 in - Pintura N°05 - 2008-2009 - óleo sobre tela - 200 X 200 cm

José Neistein
2012

Aenigma Lucens
A cor me possuí. Eu não preciso procurá-la.
Ela me possui sempre, isso eu sei. Este
É o significado desta hora feliz. A cor e eu 
Somos um. Eu sou um pintor.
A arte não produz o visível. Ela o faz visível
Paul Klee

O tema deste livro é um conjunto de dezoito telas pintadas por Sérgio Lucena, de 2006 a 2010. Elas são de tamanhos diversos e constituem uma série, aparentemente fechada, pelo menos no momento em que este texto é escrito. Dada sua natureza, contudo, como veremos adiante, não seria uma surpresa se ela for retomada um dia, em cujo caso, ela comprovará ser uma obra aberta. A variedade de tamanhos e proporções das telas tem sua razão de ser, como a análise mostrará.

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O mar de Sergio Lucena

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Enock Sacramento – crítico de arte
2011

As pinturas que Sergio Lucena reúne nessa exposição remetem aos primeiros dias da criação. No primeiro dia, disse Deus: Haja luz. E houve luz. E ele a apreciou.  A ela deu o nome de dia e às trevas, o nome de noite. Mediante expansão das águas primordiais, criou o céu e a terra, subdividindo esta  numa parte seca, a terra propriamente dita, e numa outra liquida, o mar. O mar tem sido o leitmotiv da pintura atual de Sergio Lucena, paraibano de João Pessoa que, no início dos anos 90, viveu em Berlim, Alemanha, e que hoje reside e trabalha em São Paulo.

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O abismo de Sergio Lucena

Painting N°22 - 2012 - oil on canvas - 78.7 X 78.7 in - Pintura N°22 - 2012 - óleo sobre tela - 200 X 200 cm

Raul Córdula
2011

“Descobrimos um mar, 
mais oculto e profundo
do que o familiar e liquido oceano.”
Vanildo Brito 

Na pintura profundidade não se mede, se vê. Ou, do ponto de vista do pintor, se pinta. Aliais o pintor se pinta em cada obra, se mostra por inteiro, seu âmago se revela em cada camada, em cada acorde de cor, em cada marca do pincel, da trincha, da espátula, do dedo, do corpo, pois é com ele que se pinta: registros dos seus gestos, impressão do próprio ritmo – intransferível assinatura de sua pessoa

As pinturas abissais de Sergio Lucena nos levam a um universo interno, às entranhas de nós mesmos, conduzidos pela pulsão de entender a experiência pictórica de camada sobre camada de tinta, de gesto em gesto, de transparência em transparência que seus quadros nos mostram agora.

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A arte da pintura

Morning - 2007-2008 - oil on canvas - 78.74 X 59.05 in - Manhã - 2007-2008 - óleo sobre tela - 200 X 150 cm

Matilde Matos
2011

Para os desiludidos que pensam que a pintura morreu, vão ver no Centro Cultural Correios a exposição ‘O Mar de Sergio Lucena’, que fica até o dia 27 de agosto.

Ao surgir a internet, os artistas sentiram o caráter da sua pintura ser afetado pela tecnologia. Muitos a trocaram pelo aspecto refletivo da arte conceitual, e por toda sorte de experiências, em busca de seguir os desígnios do pensamento do novo século: a mudança do fixo pelo que se move, do estável e preciso pelo indefinido, do uno pelo múltiplo.

Quando nos parecia cada vez mais rara a possibilidade de apreciar em telas, alguma coisa substancial e nova, chega sem qualquer alarde o artista paraibano Sergio Lucena, apresentando a qualidade extraordinária da sua pintura, nesses quadros em que o mar é uma constante que se apreende e se sente, quase sem se ver.

Pintando a óleo sobre telas, o artista se abstrai de repetir paisagens marinhas, mas no trabalho magistral que ele faz com as cores, ativa a lembrança de quem viveu o mar, em diferentes horas do dia ou da noite, levando-o a reconhecer a atmosfera de uma manhã enevoada na praia, a ver incandescente por do sol e o seu brilho na noite escura, de encontro ao céu. e a refletir sobre a imensidão e o mistério que ele encerra.

Afternoon 2008 - oil on canvas - 71 X 71 in - Tarde 2008  óleo sobre tela - 180 X 180 cm

Às vezes Sergio dá-se ao luxo de excluir qualquer motivo e mostra o que sabe extrair com os pinceis sobre uma tela ao pintar uma só cor, como Fúcsia, e sem deixar evidente a riqueza das mudanças de tons que ela encerra, exalta a luminosidade e configura excelente quadro.O mar é mais um dos motivos que o artista vem trabalhando. Com apuradíssimo desenho e inconcebível criação o artista fez em 2004 e 2005, a perturbadora Serie Deuses da Terra, de animais tão trabalhados que matariam de inveja o mais detalhista dos prateiros seculares babilônicos. Em alguns quadros do final dessa série como O Servo, a Vaca Sagrada, o motivo já esmaece sob a bruma característica e incomparável da seguinte Serie Deuses do Céu, de 2006/7, a pintura que já saiu do lugar comum de motivos para o reino onírico das sombras e das sensações.

O código secreto de Sergio Lucena

The bliss of solitude - 2015 - oil on canvas - 59.1 X 59.1 in - A felicidade da solidao - 2015 - óleo sobre tela - 150 X 150 cm

José Neistein
2011

Sergio Lucena começou a pintar ainda jovem, e hoje, com uma trajetória de trinta anos, ele chegou à sua maturidade artística, depois de ter trilhado várias sendas, de duro aprendizado, e de incansável exercício. Em seus começos figurativos, sua pintura estava fortemente ligada à sua Paraíba natal, seu lendário regional, seus mitos, sua atmosfera. Depois, ele fez um curso vivo de Brasil: viajou, viu e conheceu gentes, viu paisagens, fez-se amigo dos bichos. Mais tarde, ele viveu uns tempos em Berlim, onde absorveu a modernidade. Sua pintura foi acompanhando suas andanças, e foi crescendo. Na Paraíba, seus personagens, saídos do sertão e dos circos mambembes, se davam ao público coloridos, amargos, grotescos e angustiados.

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Ofereciam metaforicamente uma visão do mundo, crítica e pensativa. Desde então, sua pintura não mais deixou de ser crítica e pensativa. Mas ela veio se tornando cada vez mais pintura, mais amassada mais elaborada. Depois do lendário regional colorido, vieram os animais míticos, que evocavam um mundo ancestral, alegórico,
fantástico, vazado em virtuosidade, tudo isso em preto e branco. A essa altura, ele já estava estabelecido em São Paulo. A metrópole tanto lhe impôs arranha-céus, como lhe deu a nostalgia de um bestiário fabulizado. Nisso, ele aceita um convite para fazer workshops na Dinamarca, e descobriu a luz nórdica, oblíqua, serena, encantatória, irreal. Essa nova experiência de cor e luz despertou nele algo que já existia muito 04.0.70X1.10.2005fundo em sua personalidade: a dimensão mística, a espiritualidade. Assim. Sergio Lucena enveredou pela abstração, tão movido pelo mistério da luz e da cor como pelo mistério da existência e do cosmos, onde ela evolui. O resultado dessa nova etapa, em sua vida e em sua arte, é um processo que vem se desenvolvendo nos últimos cinco anos. E é com uma seleção de pinturas de formatos grandes, produzidas nesse período, que ele se apresenta agora ao público, oferecendo-lhe o fruto de suas pesquisas, sua meditação, sua meticulosa e vibrante construção pictórica.
O público, nessas novas pinturas, mergulhará na linguagem harmoniosa em que elas estão escritas, compostas de acordes cromáticos, que são pictóricos e são musicais, e que falamde constelações ocultas, mágicas e cósmicas, que todos nós, secretamente, ambicionamos desvendar.

The eternity lives in the night - 2014 - oil on canvas - 55.11 X 51.2 in - A eternidade vive na noite - 2014 - óleo sobre tela - 150 X 130 cm

 

A profundidade dos códigos

Painting N°13 - 2011 - oil on canvas - 51.2 X 51.2 in - Pintura N°13 - 2012 - óleo sobre tela - 130 X 130 cm

Oscar D’Ambrosio

A recente exposição Códigos, de Sergio Lucena, traz como resultado final algo já anunciado nos seus últimos trabalhos: um progressivo processo derrisório em que a imagem vai se diluindo em nome da discussão daquilo que de fato torna a pintura essencial e portentosa como forma de expressão.

Refiro-me às sutilezas das tonalidades e a uma busca constante por soluções cromáticas que podem expressar estados de espírito, mas que são, acima de tudo, autênticos mergulhos nas potencialidades do ato de levar concepções mentais
para a tela por meio da extensão do braço. Esse movimento, embora encerre, é claro, questões de ordem emocional, existencial e antropológica, ganha em sentido quando vista como um exercício artístico em si mesmo, sem justificativas vivenciais ou biográficas. O que está na galeria são códigos não tanto para serem decifrados, mas para serem admirados.

Existe nessa diferença uma postura plástica determinante. A arte, quando discutida pelos seus elementos constitutivos, como luz, cor, linha e mancha, entre outros, nos leva a uma discussão que mobiliza de forma interna e inimaginável. Ultrapassa biografias e altera visões de mundo. É esse poder que os códigos de Sergio Lucena suscitam.

Oscar D’Ambrosio, doutorando em Educação, Arte e História da Cultura na Universidade Mackenzie, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp. Integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

Poemare

Gray - 2010 - oil on canvas - 35.4 X 27.6 in - Cinza - 2010 - óleo sobre tela - 90 X 70 cm

William Costa
2010

Quem há de negar à poderosa e imorredoura força da poesia, que tem, entre seus néctares e ambrosias, o mar e todas as suas possibilidades? A história que vos narro agora nos foi compartilhada por Sérgio Lucena, artista paraibano hoje radicado na capital paulista – transfigurada em cidadela, para criação e defesa de uma pintura vigorosa de enigmas e mistérios poéticos.

Certo dia, o artista e crítico de arte Raul Córdula – também paraibano e radicado em Olinda – enviou a Sérgio algumas reflexões gravadas de próprio punho em papel, acerca da pintura do amigo, tendo como epígrafe a estrofe de um poema do saudoso Vanildo Brito: descobrimos um mar/mais oculto e profundo/do que o familiar e/líquido oceano.
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