O código secreto de Sergio Lucena

The bliss of solitude - 2015 - oil on canvas - 59.1 X 59.1 in - A felicidade da solidao - 2015 - óleo sobre tela - 150 X 150 cm

José Neistein
2011

Sergio Lucena começou a pintar ainda jovem, e hoje, com uma trajetória de trinta anos, ele chegou à sua maturidade artística, depois de ter trilhado várias sendas, de duro aprendizado, e de incansável exercício. Em seus começos figurativos, sua pintura estava fortemente ligada à sua Paraíba natal, seu lendário regional, seus mitos, sua atmosfera. Depois, ele fez um curso vivo de Brasil: viajou, viu e conheceu gentes, viu paisagens, fez-se amigo dos bichos. Mais tarde, ele viveu uns tempos em Berlim, onde absorveu a modernidade. Sua pintura foi acompanhando suas andanças, e foi crescendo. Na Paraíba, seus personagens, saídos do sertão e dos circos mambembes, se davam ao público coloridos, amargos, grotescos e angustiados.

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Ofereciam metaforicamente uma visão do mundo, crítica e pensativa. Desde então, sua pintura não mais deixou de ser crítica e pensativa. Mas ela veio se tornando cada vez mais pintura, mais amassada mais elaborada. Depois do lendário regional colorido, vieram os animais míticos, que evocavam um mundo ancestral, alegórico,
fantástico, vazado em virtuosidade, tudo isso em preto e branco. A essa altura, ele já estava estabelecido em São Paulo. A metrópole tanto lhe impôs arranha-céus, como lhe deu a nostalgia de um bestiário fabulizado. Nisso, ele aceita um convite para fazer workshops na Dinamarca, e descobriu a luz nórdica, oblíqua, serena, encantatória, irreal. Essa nova experiência de cor e luz despertou nele algo que já existia muito 04.0.70X1.10.2005fundo em sua personalidade: a dimensão mística, a espiritualidade. Assim. Sergio Lucena enveredou pela abstração, tão movido pelo mistério da luz e da cor como pelo mistério da existência e do cosmos, onde ela evolui. O resultado dessa nova etapa, em sua vida e em sua arte, é um processo que vem se desenvolvendo nos últimos cinco anos. E é com uma seleção de pinturas de formatos grandes, produzidas nesse período, que ele se apresenta agora ao público, oferecendo-lhe o fruto de suas pesquisas, sua meditação, sua meticulosa e vibrante construção pictórica.
O público, nessas novas pinturas, mergulhará na linguagem harmoniosa em que elas estão escritas, compostas de acordes cromáticos, que são pictóricos e são musicais, e que falamde constelações ocultas, mágicas e cósmicas, que todos nós, secretamente, ambicionamos desvendar.

The eternity lives in the night - 2014 - oil on canvas - 55.11 X 51.2 in - A eternidade vive na noite - 2014 - óleo sobre tela - 150 X 130 cm

 

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A profundidade dos códigos

Painting N°13 - 2011 - oil on canvas - 51.2 X 51.2 in - Pintura N°13 - 2012 - óleo sobre tela - 130 X 130 cm

Oscar D’Ambrosio

A recente exposição Códigos, de Sergio Lucena, traz como resultado final algo já anunciado nos seus últimos trabalhos: um progressivo processo derrisório em que a imagem vai se diluindo em nome da discussão daquilo que de fato torna a pintura essencial e portentosa como forma de expressão.

Refiro-me às sutilezas das tonalidades e a uma busca constante por soluções cromáticas que podem expressar estados de espírito, mas que são, acima de tudo, autênticos mergulhos nas potencialidades do ato de levar concepções mentais
para a tela por meio da extensão do braço. Esse movimento, embora encerre, é claro, questões de ordem emocional, existencial e antropológica, ganha em sentido quando vista como um exercício artístico em si mesmo, sem justificativas vivenciais ou biográficas. O que está na galeria são códigos não tanto para serem decifrados, mas para serem admirados.

Existe nessa diferença uma postura plástica determinante. A arte, quando discutida pelos seus elementos constitutivos, como luz, cor, linha e mancha, entre outros, nos leva a uma discussão que mobiliza de forma interna e inimaginável. Ultrapassa biografias e altera visões de mundo. É esse poder que os códigos de Sergio Lucena suscitam.

Oscar D’Ambrosio, doutorando em Educação, Arte e História da Cultura na Universidade Mackenzie, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp. Integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

Poemare

Gray - 2010 - oil on canvas - 35.4 X 27.6 in - Cinza - 2010 - óleo sobre tela - 90 X 70 cm

William Costa
2010

Quem há de negar à poderosa e imorredoura força da poesia, que tem, entre seus néctares e ambrosias, o mar e todas as suas possibilidades? A história que vos narro agora nos foi compartilhada por Sérgio Lucena, artista paraibano hoje radicado na capital paulista – transfigurada em cidadela, para criação e defesa de uma pintura vigorosa de enigmas e mistérios poéticos.

Certo dia, o artista e crítico de arte Raul Córdula – também paraibano e radicado em Olinda – enviou a Sérgio algumas reflexões gravadas de próprio punho em papel, acerca da pintura do amigo, tendo como epígrafe a estrofe de um poema do saudoso Vanildo Brito: descobrimos um mar/mais oculto e profundo/do que o familiar e/líquido oceano.
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A nova paisagem

The pink dream - 2014 - oil on canvas - 59.05 X 78.74 in - O sonho rosa - 2014 - óleo sobre tela - 150 x 200 cm

Jacob Klintowitz
2009

É possível que o pintor Sérgio Lucena seja o último paisagista da longa tradição brasileira que já nos deu artistas do porte de José Pancetti e Alberto da Veiga Guignard. Mas a sua é uma paisagem que não parece localizada em algum lugar reconhecível.

Curioso percurso deste gênero: começou quando Georg Grimm abandonou o recinto fechado da Academia Imperial de Belas Artes e a sua herança de “luz francesa”, para pintar ao ar livre, nas ensolaradas praias de Niterói. E, ao que parece, chegou ao ponto de, com Lucena, situar-se numa região geográfica inexistente, numa espécie de sitio espiritual da qual a paisagem é a emanação pictórica. Um belo percurso: artificial, a cor e a luz brasileira e, ao final, o registro de uma paisagem da alma.
Talvez essa pintura sutil possa, em alguns momentos, ser identificada com a abstração geométrica. Entretanto, nem sempre isso é factível, pois, na essência, não se propõe a tratar de relações exatas. Ao contrário, ela mantém a intensidade da emoção. O que emociona nestas imagens? Sem dúvida a qualidade da pintura, mas também há uma recuperada memória, quem sabe o sentimento de algo imemorial, ou o ressurgir de uma sensação que parecia para sempre perdida.

A pintura de Sérgio Lucena é a revelação de um continente individual. Não de um lugar mensurável, mas transcendente. Entretanto, este continente submerso que emerge, completo e individual, é humano e, por nuclear, semelhante ao humano. É onde nos encontramos, o contemplador e a pintura, neste núcleo primevo. Ao pesquisar e revelar o continente oculto, este mítico continente que nunca submergiu, pois sempre esteve ali, o artista registra o nosso acervo, o que é comum a todos. E o contemplador amplia os limites de seu universo ao se reconhecer na paisagem utópica.

Cenas na vida de um pintor

Yellow and violet - 2012 - oil on cardboard Arches - 47.2 X 31.5 in - Amarelo e Violeta - 2012 - óleo sobre cartao Arches - 120 X 80 cm

Jacob Klintowitz
2009

Esta poderia ser uma biografia, mas é só um percurso de busca: Sergio Lucena nasceu na Paraíba, morou na Chapada dos Guimarães, em Berlim e, agora, em São Paulo. Aqui se trata do sensível, do seu caminho e da intensidade do chamado. E esta mostra apresenta esta trilha através do dado real, momentos diferentes de sua pintura: sátira, animais sagrados, o eixo do mundo e paisagens metafísicas.

É possível que o pintor Sérgio Lucena seja o último paisagista da longa tradição brasileira que já nos deu artistas do porte de José Pancetti e Alberto da Veiga Guignard. Mas a sua é uma paisagem que não parece localizada em algum lugar reconhecível.

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Sudário

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Poema de Roberta Ferraz
2008

Ao Sérgio Lucena

Primeiro Instante

Libélulas de pimenta, dedo-de-moça
no arraial de março, os escaravelhos
atiçam o timo do trapezista, dançam
a meia-lua para que ele se esquente
e prossiga, até o pequeno ovo
amanhecido.

Nesta laje todas as memórias pingam.
O mais nítido de nós se apresenta
em sua fantasia. E não há semelhança
no mundo, há uma mesma raiz
um mesmo chão
um mesmo horizonte.

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Vertentes complementares

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Oscar D’Ambrosio
2008

A pintura digna desse nome tem a capacidade de encontrar, na matéria concreta, a essência que leva ao auto-conhecimento, tanto daquele que pinta como daquele que vê. O exercício artístico de Sergio Lucena aponta para isso em duas expressões visuais aparentemente díspares, mas unidas pelo tratamento plástico.

As paisagens fascinam pelo cuidadoso trabalho de raspagem e construção e desconstrução de camadas, enquanto fantásticos seres imaginários surgem plasticamente unidos pelo parcimonioso uso da cor e pelos elaborados arabescos em seus corpos.

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