O abismo de Sergio Lucena

Painting N°22 - 2012 - oil on canvas - 78.7 X 78.7 in - Pintura N°22 - 2012 - óleo sobre tela - 200 X 200 cm

Raul Córdula
2011

“Descobrimos um mar, 
mais oculto e profundo
do que o familiar e liquido oceano.”
Vanildo Brito 

Na pintura profundidade não se mede, se vê. Ou, do ponto de vista do pintor, se pinta. Aliais o pintor se pinta em cada obra, se mostra por inteiro, seu âmago se revela em cada camada, em cada acorde de cor, em cada marca do pincel, da trincha, da espátula, do dedo, do corpo, pois é com ele que se pinta: registros dos seus gestos, impressão do próprio ritmo – intransferível assinatura de sua pessoa

As pinturas abissais de Sergio Lucena nos levam a um universo interno, às entranhas de nós mesmos, conduzidos pela pulsão de entender a experiência pictórica de camada sobre camada de tinta, de gesto em gesto, de transparência em transparência que seus quadros nos mostram agora.

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A arte da pintura

Morning - 2007-2008 - oil on canvas - 78.74 X 59.05 in - Manhã - 2007-2008 - óleo sobre tela - 200 X 150 cm

Matilde Matos
2011

Para os desiludidos que pensam que a pintura morreu, vão ver no Centro Cultural Correios a exposição ‘O Mar de Sergio Lucena’, que fica até o dia 27 de agosto.

Ao surgir a internet, os artistas sentiram o caráter da sua pintura ser afetado pela tecnologia. Muitos a trocaram pelo aspecto refletivo da arte conceitual, e por toda sorte de experiências, em busca de seguir os desígnios do pensamento do novo século: a mudança do fixo pelo que se move, do estável e preciso pelo indefinido, do uno pelo múltiplo.

Quando nos parecia cada vez mais rara a possibilidade de apreciar em telas, alguma coisa substancial e nova, chega sem qualquer alarde o artista paraibano Sergio Lucena, apresentando a qualidade extraordinária da sua pintura, nesses quadros em que o mar é uma constante que se apreende e se sente, quase sem se ver.

Pintando a óleo sobre telas, o artista se abstrai de repetir paisagens marinhas, mas no trabalho magistral que ele faz com as cores, ativa a lembrança de quem viveu o mar, em diferentes horas do dia ou da noite, levando-o a reconhecer a atmosfera de uma manhã enevoada na praia, a ver incandescente por do sol e o seu brilho na noite escura, de encontro ao céu. e a refletir sobre a imensidão e o mistério que ele encerra.

Afternoon 2008 - oil on canvas - 71 X 71 in - Tarde 2008  óleo sobre tela - 180 X 180 cm

Às vezes Sergio dá-se ao luxo de excluir qualquer motivo e mostra o que sabe extrair com os pinceis sobre uma tela ao pintar uma só cor, como Fúcsia, e sem deixar evidente a riqueza das mudanças de tons que ela encerra, exalta a luminosidade e configura excelente quadro.O mar é mais um dos motivos que o artista vem trabalhando. Com apuradíssimo desenho e inconcebível criação o artista fez em 2004 e 2005, a perturbadora Serie Deuses da Terra, de animais tão trabalhados que matariam de inveja o mais detalhista dos prateiros seculares babilônicos. Em alguns quadros do final dessa série como O Servo, a Vaca Sagrada, o motivo já esmaece sob a bruma característica e incomparável da seguinte Serie Deuses do Céu, de 2006/7, a pintura que já saiu do lugar comum de motivos para o reino onírico das sombras e das sensações.

O código secreto de Sergio Lucena

The bliss of solitude - 2015 - oil on canvas - 59.1 X 59.1 in - A felicidade da solidao - 2015 - óleo sobre tela - 150 X 150 cm

José Neistein
2011

Sergio Lucena começou a pintar ainda jovem, e hoje, com uma trajetória de trinta anos, ele chegou à sua maturidade artística, depois de ter trilhado várias sendas, de duro aprendizado, e de incansável exercício. Em seus começos figurativos, sua pintura estava fortemente ligada à sua Paraíba natal, seu lendário regional, seus mitos, sua atmosfera. Depois, ele fez um curso vivo de Brasil: viajou, viu e conheceu gentes, viu paisagens, fez-se amigo dos bichos. Mais tarde, ele viveu uns tempos em Berlim, onde absorveu a modernidade. Sua pintura foi acompanhando suas andanças, e foi crescendo. Na Paraíba, seus personagens, saídos do sertão e dos circos mambembes, se davam ao público coloridos, amargos, grotescos e angustiados.

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Ofereciam metaforicamente uma visão do mundo, crítica e pensativa. Desde então, sua pintura não mais deixou de ser crítica e pensativa. Mas ela veio se tornando cada vez mais pintura, mais amassada mais elaborada. Depois do lendário regional colorido, vieram os animais míticos, que evocavam um mundo ancestral, alegórico,
fantástico, vazado em virtuosidade, tudo isso em preto e branco. A essa altura, ele já estava estabelecido em São Paulo. A metrópole tanto lhe impôs arranha-céus, como lhe deu a nostalgia de um bestiário fabulizado. Nisso, ele aceita um convite para fazer workshops na Dinamarca, e descobriu a luz nórdica, oblíqua, serena, encantatória, irreal. Essa nova experiência de cor e luz despertou nele algo que já existia muito 04.0.70X1.10.2005fundo em sua personalidade: a dimensão mística, a espiritualidade. Assim. Sergio Lucena enveredou pela abstração, tão movido pelo mistério da luz e da cor como pelo mistério da existência e do cosmos, onde ela evolui. O resultado dessa nova etapa, em sua vida e em sua arte, é um processo que vem se desenvolvendo nos últimos cinco anos. E é com uma seleção de pinturas de formatos grandes, produzidas nesse período, que ele se apresenta agora ao público, oferecendo-lhe o fruto de suas pesquisas, sua meditação, sua meticulosa e vibrante construção pictórica.
O público, nessas novas pinturas, mergulhará na linguagem harmoniosa em que elas estão escritas, compostas de acordes cromáticos, que são pictóricos e são musicais, e que falamde constelações ocultas, mágicas e cósmicas, que todos nós, secretamente, ambicionamos desvendar.

The eternity lives in the night - 2014 - oil on canvas - 55.11 X 51.2 in - A eternidade vive na noite - 2014 - óleo sobre tela - 150 X 130 cm

 

Entrevista ao jornalista Astier Basílio

The place of memory - 2013-2014 - oil on canvas - 72.8 X 98.4 in - O lugar da memória - 2013-2014 - óleo sobre tela -185 X 250 cm

3 de maio de 2011

Me recorda aquela epifania que você teve. Era que ano mesmo? Você tinha ido para qual país, ia descer em qual estação de trem e tinha ido desenvolver qual trabalho?
Deixa-me contar alguns fatos subjacentes que dão contexto a esta ocorrência. Tenho uma forte relação com a natureza. Minha infância no sertão da Paraíba em companhia do meu avô materno, em sua fazenda de gado e algodão, sedimentou uma realidade indelével que se tornou parâmetro de toda minha percepção das coisas. Aos 24 anos larguei tudo na Paraíba, carreira inclusive, para buscar esta experiência da infância indo viver na Chapada dos Guimarães, sertão do Mato Grosso, plantando e colhendo.  Esta aventura deu-me a consciência que não sou um homem do campo, apesar da relação profunda com as coisas da terra, sou na verdade um homem urbano e descobri indo viver em Berlim que, quanto mais cosmopolita for o ambiente melhor eu me sinto.
Pois bem, a experiência vivida no durante o trajeto de trem entre Copenhagen, capital da Dinamarca, e Brande onde se situa a Instituição Cultural Remisen-Brande que em 2005 convidou-me para um workshop de um mês em conjunto com artistas de quase todos os continentes, foi de ordem transcendente.
Penso Astier que a experiência é a matéria prima da arte, a vida é, pois o tema e a matéria da arte. Isto posto, fica fácil compreender que a arte não cumpre o papel de descrever a vida, seu propósito é mais amplo e mais profundo, qual seja formalizar em seu tempo o significado da vida, coletiva e individual, em um totem simbólico por meio da linguagem. O que confere, portanto dimensão ao artista é a sua atitude frente à vida, o artista domina a linguagem na exata medida que se torna consciente de si mesmo.

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A profundidade dos códigos

Painting N°13 - 2011 - oil on canvas - 51.2 X 51.2 in - Pintura N°13 - 2012 - óleo sobre tela - 130 X 130 cm

Oscar D’Ambrosio

A recente exposição Códigos, de Sergio Lucena, traz como resultado final algo já anunciado nos seus últimos trabalhos: um progressivo processo derrisório em que a imagem vai se diluindo em nome da discussão daquilo que de fato torna a pintura essencial e portentosa como forma de expressão.

Refiro-me às sutilezas das tonalidades e a uma busca constante por soluções cromáticas que podem expressar estados de espírito, mas que são, acima de tudo, autênticos mergulhos nas potencialidades do ato de levar concepções mentais
para a tela por meio da extensão do braço. Esse movimento, embora encerre, é claro, questões de ordem emocional, existencial e antropológica, ganha em sentido quando vista como um exercício artístico em si mesmo, sem justificativas vivenciais ou biográficas. O que está na galeria são códigos não tanto para serem decifrados, mas para serem admirados.

Existe nessa diferença uma postura plástica determinante. A arte, quando discutida pelos seus elementos constitutivos, como luz, cor, linha e mancha, entre outros, nos leva a uma discussão que mobiliza de forma interna e inimaginável. Ultrapassa biografias e altera visões de mundo. É esse poder que os códigos de Sergio Lucena suscitam.

Oscar D’Ambrosio, doutorando em Educação, Arte e História da Cultura na Universidade Mackenzie, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp. Integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

Entrevista ao jornalista Ricardo Anisio

Painting N°12 - 2010 - oil on canvas - 55.1 X 55.1 in - Pintura N°12 - 2010 -              óleo sobre tela - 140 X 140 cm

2011

O que te fez decidir deixar a Paraíba e investir na sua carreira, no Sul do país?
Meu caro amigo Ricardo você é um poeta e, portanto sabe bem o que do artista a arte exige: tudo, incondicionalmente. Vir para São Paulo teve como premissa atender a esta demanda.
Demanda por dialogo, demanda por referencias, por parâmetros, a busca natural do artista por realizar seu caminho, seu destino. O contato com um mundo ampliado dimensiona o que você é, lhe coloca em perspectiva e lhe dá a medida de si, isto é fundamental para a autoconsciência.

O artista deve se capacitar para servir ao propósito da arte, este é o propósito da minha vida, o único investimento ao qual devoto minha vida hoje, assim como fora antes e certamente será até o fim.
Eu sou artista e minha forma de expressão é a pintura, fazer pintura é exatamente o que eu vim fazer neste mundo, de maneira que onde as condições forem favoráveis a este propósito lá eu estarei.

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Poemare

Gray - 2010 - oil on canvas - 35.4 X 27.6 in - Cinza - 2010 - óleo sobre tela - 90 X 70 cm

William Costa
2010

Quem há de negar à poderosa e imorredoura força da poesia, que tem, entre seus néctares e ambrosias, o mar e todas as suas possibilidades? A história que vos narro agora nos foi compartilhada por Sérgio Lucena, artista paraibano hoje radicado na capital paulista – transfigurada em cidadela, para criação e defesa de uma pintura vigorosa de enigmas e mistérios poéticos.

Certo dia, o artista e crítico de arte Raul Córdula – também paraibano e radicado em Olinda – enviou a Sérgio algumas reflexões gravadas de próprio punho em papel, acerca da pintura do amigo, tendo como epígrafe a estrofe de um poema do saudoso Vanildo Brito: descobrimos um mar/mais oculto e profundo/do que o familiar e/líquido oceano.
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A nova paisagem

The pink dream - 2014 - oil on canvas - 59.05 X 78.74 in - O sonho rosa - 2014 - óleo sobre tela - 150 x 200 cm

Jacob Klintowitz
2009

É possível que o pintor Sérgio Lucena seja o último paisagista da longa tradição brasileira que já nos deu artistas do porte de José Pancetti e Alberto da Veiga Guignard. Mas a sua é uma paisagem que não parece localizada em algum lugar reconhecível.

Curioso percurso deste gênero: começou quando Georg Grimm abandonou o recinto fechado da Academia Imperial de Belas Artes e a sua herança de “luz francesa”, para pintar ao ar livre, nas ensolaradas praias de Niterói. E, ao que parece, chegou ao ponto de, com Lucena, situar-se numa região geográfica inexistente, numa espécie de sitio espiritual da qual a paisagem é a emanação pictórica. Um belo percurso: artificial, a cor e a luz brasileira e, ao final, o registro de uma paisagem da alma.
Talvez essa pintura sutil possa, em alguns momentos, ser identificada com a abstração geométrica. Entretanto, nem sempre isso é factível, pois, na essência, não se propõe a tratar de relações exatas. Ao contrário, ela mantém a intensidade da emoção. O que emociona nestas imagens? Sem dúvida a qualidade da pintura, mas também há uma recuperada memória, quem sabe o sentimento de algo imemorial, ou o ressurgir de uma sensação que parecia para sempre perdida.

A pintura de Sérgio Lucena é a revelação de um continente individual. Não de um lugar mensurável, mas transcendente. Entretanto, este continente submerso que emerge, completo e individual, é humano e, por nuclear, semelhante ao humano. É onde nos encontramos, o contemplador e a pintura, neste núcleo primevo. Ao pesquisar e revelar o continente oculto, este mítico continente que nunca submergiu, pois sempre esteve ali, o artista registra o nosso acervo, o que é comum a todos. E o contemplador amplia os limites de seu universo ao se reconhecer na paisagem utópica.

Entrevista ao jornalista Fabricio Brandão

Revista Diversos Afins, Julho de 2009

1- Suas primeiras visões vêm das reminiscências povoadas pelo vasto e mítico imaginário nordestino. Como foi que tais olhares se fortaleceram em seu íntimo a ponto de motivar a sua arte?
Minha infância foi marcada pelo sertão, o centro do meu universo, a fazenda de gado e algodão do meu avô materno onde experimentei o real, o leito rochoso onde firmei os pés. Lá existe uma pedra, um imenso granito solitário com aproximadamente trezentos metros de altura. Costumava subir esta pedra para olhar o mundo do alto, para mim aquela visão era, e continua sendo, o lugar sem engano.
O sertão nordestino com seus silêncios, sua alma arcaica, consubstancia uma realidade sem dúvidas. “Viver é muito perigoso” diz Guimarães, como a dizer que a vida só é possível com princípios, com dignidade, valor seminal. Toda a alta cultura nordestina não é outra coisa que a preservação de códigos de conduta. Estruturas essenciais que permitem a vida e criam espaço para o sonho realizador.
O que vi sem que me mostrassem, o que ouvi sem que me dissessem, o que senti sem demonstrar, (a metodologia sertaneja de transmissão do que importa) tudo calou fundo em mim até estar pronto para vir à tona.
Sou hoje a pedra da minha infância, a vastidão, o mistério, o arcaico, o espaço cósmico infinito, o não saber, o aceitar. Minha pintura atende unicamente a vida, sua demanda… Minha motivação é estar à altura disto.

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A bordo da pintura

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Diálogo entre Sergio Lucena e Floriano Martins
Fortaleza, São Paulo – Setembro / Outubro de 2007

FM Estava aqui pensando naquele navio cor de chumbo que em 1995 surge em teu horizonte estético trazendo a bordo as figuras que por algum momento haviam desaparecido dentro da paisagem de uma nova fase de tua pintura. É uma imagem muito bonita e que me faz pensar sobre a conexão entre a realidade e a criação, mundo exterior e mundo interior. Como se descortina em ti essa conexão entre dois mundos? São, de fato, dois mundos?

SL São sim dois mundos, porém complementares e indissociáveis. O que me faz pensar que os dois sejam em verdade um. Vejo a questão da conexão entre os dois mundos de forma particular. O elo é um terceiro elemento, me parece. Esta concepção em tríade sugere, ao fim, uma realidade complexa, o real com o qual lidamos na experiência cotidiana. Para mim, logo no inicio, foram estas as questões essenciais. Hoje sinto que a coisa é ainda mais complexa, sinto que há algo presente sobre o qual nada ou quase eu posso falar. Trata-se de um dado imponderável, algo que atua à revelia de minha consciência manipuladora, mas que efetivamente consubstancia, para mim, a realidade de significado. O que me parece mais próximo ao que eu estou tentando expressar é a concepção da idéia da Graça.
A pintura cumpre em mim esta função, elemento comunicante entre o dentro e o fora e além. Deste além fala a pintura só, em silêncio.

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