A profundidade dos códigos

Painting N°13 - 2011 - oil on canvas - 51.2 X 51.2 in - Pintura N°13 - 2012 - óleo sobre tela - 130 X 130 cm

Oscar D’Ambrosio

A recente exposição Códigos, de Sergio Lucena, traz como resultado final algo já anunciado nos seus últimos trabalhos: um progressivo processo derrisório em que a imagem vai se diluindo em nome da discussão daquilo que de fato torna a pintura essencial e portentosa como forma de expressão.

Refiro-me às sutilezas das tonalidades e a uma busca constante por soluções cromáticas que podem expressar estados de espírito, mas que são, acima de tudo, autênticos mergulhos nas potencialidades do ato de levar concepções mentais
para a tela por meio da extensão do braço. Esse movimento, embora encerre, é claro, questões de ordem emocional, existencial e antropológica, ganha em sentido quando vista como um exercício artístico em si mesmo, sem justificativas vivenciais ou biográficas. O que está na galeria são códigos não tanto para serem decifrados, mas para serem admirados.

Existe nessa diferença uma postura plástica determinante. A arte, quando discutida pelos seus elementos constitutivos, como luz, cor, linha e mancha, entre outros, nos leva a uma discussão que mobiliza de forma interna e inimaginável. Ultrapassa biografias e altera visões de mundo. É esse poder que os códigos de Sergio Lucena suscitam.

Oscar D’Ambrosio, doutorando em Educação, Arte e História da Cultura na Universidade Mackenzie, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp. Integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

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Entrevista ao jornalista Ricardo Anisio

Painting N°12 - 2010 - oil on canvas - 55.1 X 55.1 in - Pintura N°12 - 2010 -              óleo sobre tela - 140 X 140 cm

2011

O que te fez decidir deixar a Paraíba e investir na sua carreira, no Sul do país?
Meu caro amigo Ricardo você é um poeta e, portanto sabe bem o que do artista a arte exige: tudo, incondicionalmente. Vir para São Paulo teve como premissa atender a esta demanda.
Demanda por dialogo, demanda por referencias, por parâmetros, a busca natural do artista por realizar seu caminho, seu destino. O contato com um mundo ampliado dimensiona o que você é, lhe coloca em perspectiva e lhe dá a medida de si, isto é fundamental para a autoconsciência.

O artista deve se capacitar para servir ao propósito da arte, este é o propósito da minha vida, o único investimento ao qual devoto minha vida hoje, assim como fora antes e certamente será até o fim.
Eu sou artista e minha forma de expressão é a pintura, fazer pintura é exatamente o que eu vim fazer neste mundo, de maneira que onde as condições forem favoráveis a este propósito lá eu estarei.

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Poemare

Gray - 2010 - oil on canvas - 35.4 X 27.6 in - Cinza - 2010 - óleo sobre tela - 90 X 70 cm

William Costa
2010

Quem há de negar à poderosa e imorredoura força da poesia, que tem, entre seus néctares e ambrosias, o mar e todas as suas possibilidades? A história que vos narro agora nos foi compartilhada por Sérgio Lucena, artista paraibano hoje radicado na capital paulista – transfigurada em cidadela, para criação e defesa de uma pintura vigorosa de enigmas e mistérios poéticos.

Certo dia, o artista e crítico de arte Raul Córdula – também paraibano e radicado em Olinda – enviou a Sérgio algumas reflexões gravadas de próprio punho em papel, acerca da pintura do amigo, tendo como epígrafe a estrofe de um poema do saudoso Vanildo Brito: descobrimos um mar/mais oculto e profundo/do que o familiar e/líquido oceano.
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A nova paisagem

The pink dream - 2014 - oil on canvas - 59.05 X 78.74 in - O sonho rosa - 2014 - óleo sobre tela - 150 x 200 cm

Jacob Klintowitz
2009

É possível que o pintor Sérgio Lucena seja o último paisagista da longa tradição brasileira que já nos deu artistas do porte de José Pancetti e Alberto da Veiga Guignard. Mas a sua é uma paisagem que não parece localizada em algum lugar reconhecível.

Curioso percurso deste gênero: começou quando Georg Grimm abandonou o recinto fechado da Academia Imperial de Belas Artes e a sua herança de “luz francesa”, para pintar ao ar livre, nas ensolaradas praias de Niterói. E, ao que parece, chegou ao ponto de, com Lucena, situar-se numa região geográfica inexistente, numa espécie de sitio espiritual da qual a paisagem é a emanação pictórica. Um belo percurso: artificial, a cor e a luz brasileira e, ao final, o registro de uma paisagem da alma.
Talvez essa pintura sutil possa, em alguns momentos, ser identificada com a abstração geométrica. Entretanto, nem sempre isso é factível, pois, na essência, não se propõe a tratar de relações exatas. Ao contrário, ela mantém a intensidade da emoção. O que emociona nestas imagens? Sem dúvida a qualidade da pintura, mas também há uma recuperada memória, quem sabe o sentimento de algo imemorial, ou o ressurgir de uma sensação que parecia para sempre perdida.

A pintura de Sérgio Lucena é a revelação de um continente individual. Não de um lugar mensurável, mas transcendente. Entretanto, este continente submerso que emerge, completo e individual, é humano e, por nuclear, semelhante ao humano. É onde nos encontramos, o contemplador e a pintura, neste núcleo primevo. Ao pesquisar e revelar o continente oculto, este mítico continente que nunca submergiu, pois sempre esteve ali, o artista registra o nosso acervo, o que é comum a todos. E o contemplador amplia os limites de seu universo ao se reconhecer na paisagem utópica.

Entrevista ao jornalista Fabricio Brandão

Revista Diversos Afins, Julho de 2009

1- Suas primeiras visões vêm das reminiscências povoadas pelo vasto e mítico imaginário nordestino. Como foi que tais olhares se fortaleceram em seu íntimo a ponto de motivar a sua arte?
Minha infância foi marcada pelo sertão, o centro do meu universo, a fazenda de gado e algodão do meu avô materno onde experimentei o real, o leito rochoso onde firmei os pés. Lá existe uma pedra, um imenso granito solitário com aproximadamente trezentos metros de altura. Costumava subir esta pedra para olhar o mundo do alto, para mim aquela visão era, e continua sendo, o lugar sem engano.
O sertão nordestino com seus silêncios, sua alma arcaica, consubstancia uma realidade sem dúvidas. “Viver é muito perigoso” diz Guimarães, como a dizer que a vida só é possível com princípios, com dignidade, valor seminal. Toda a alta cultura nordestina não é outra coisa que a preservação de códigos de conduta. Estruturas essenciais que permitem a vida e criam espaço para o sonho realizador.
O que vi sem que me mostrassem, o que ouvi sem que me dissessem, o que senti sem demonstrar, (a metodologia sertaneja de transmissão do que importa) tudo calou fundo em mim até estar pronto para vir à tona.
Sou hoje a pedra da minha infância, a vastidão, o mistério, o arcaico, o espaço cósmico infinito, o não saber, o aceitar. Minha pintura atende unicamente a vida, sua demanda… Minha motivação é estar à altura disto.

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A bordo da pintura

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Diálogo entre Sergio Lucena e Floriano Martins
Fortaleza, São Paulo – Setembro / Outubro de 2007

FM Estava aqui pensando naquele navio cor de chumbo que em 1995 surge em teu horizonte estético trazendo a bordo as figuras que por algum momento haviam desaparecido dentro da paisagem de uma nova fase de tua pintura. É uma imagem muito bonita e que me faz pensar sobre a conexão entre a realidade e a criação, mundo exterior e mundo interior. Como se descortina em ti essa conexão entre dois mundos? São, de fato, dois mundos?

SL São sim dois mundos, porém complementares e indissociáveis. O que me faz pensar que os dois sejam em verdade um. Vejo a questão da conexão entre os dois mundos de forma particular. O elo é um terceiro elemento, me parece. Esta concepção em tríade sugere, ao fim, uma realidade complexa, o real com o qual lidamos na experiência cotidiana. Para mim, logo no inicio, foram estas as questões essenciais. Hoje sinto que a coisa é ainda mais complexa, sinto que há algo presente sobre o qual nada ou quase eu posso falar. Trata-se de um dado imponderável, algo que atua à revelia de minha consciência manipuladora, mas que efetivamente consubstancia, para mim, a realidade de significado. O que me parece mais próximo ao que eu estou tentando expressar é a concepção da idéia da Graça.
A pintura cumpre em mim esta função, elemento comunicante entre o dentro e o fora e além. Deste além fala a pintura só, em silêncio.

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Cenas na vida de um pintor

Yellow and violet - 2012 - oil on cardboard Arches - 47.2 X 31.5 in - Amarelo e Violeta - 2012 - óleo sobre cartao Arches - 120 X 80 cm

Jacob Klintowitz
2009

Esta poderia ser uma biografia, mas é só um percurso de busca: Sergio Lucena nasceu na Paraíba, morou na Chapada dos Guimarães, em Berlim e, agora, em São Paulo. Aqui se trata do sensível, do seu caminho e da intensidade do chamado. E esta mostra apresenta esta trilha através do dado real, momentos diferentes de sua pintura: sátira, animais sagrados, o eixo do mundo e paisagens metafísicas.

É possível que o pintor Sérgio Lucena seja o último paisagista da longa tradição brasileira que já nos deu artistas do porte de José Pancetti e Alberto da Veiga Guignard. Mas a sua é uma paisagem que não parece localizada em algum lugar reconhecível.

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