Sudário

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Poema de Roberta Ferraz
2008

Ao Sérgio Lucena

Primeiro Instante

Libélulas de pimenta, dedo-de-moça
no arraial de março, os escaravelhos
atiçam o timo do trapezista, dançam
a meia-lua para que ele se esquente
e prossiga, até o pequeno ovo
amanhecido.

Nesta laje todas as memórias pingam.
O mais nítido de nós se apresenta
em sua fantasia. E não há semelhança
no mundo, há uma mesma raiz
um mesmo chão
um mesmo horizonte.

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Vertentes complementares

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Oscar D’Ambrosio
2008

A pintura digna desse nome tem a capacidade de encontrar, na matéria concreta, a essência que leva ao auto-conhecimento, tanto daquele que pinta como daquele que vê. O exercício artístico de Sergio Lucena aponta para isso em duas expressões visuais aparentemente díspares, mas unidas pelo tratamento plástico.

As paisagens fascinam pelo cuidadoso trabalho de raspagem e construção e desconstrução de camadas, enquanto fantásticos seres imaginários surgem plasticamente unidos pelo parcimonioso uso da cor e pelos elaborados arabescos em seus corpos.

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O bestiário fantástico de Sergio Lucena

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José Roberto Teixeira Leite
2008

Menino ainda, ao tempo em que vivia no interior de sua Paraíba natal, Sergio Lucena ouviu fascinado estórias do folclore nordestino, com suas fábulas e lendas de pavões misteriosos, sapos, serpentes e bois encantados, além de descobrir, na biblioteca do avô, reproduções de Pieter Bruegel e de outros antigos mestres do Fantástico: familiarizou-se assim desde cedo com um mundo maravilhoso, povoado de seres estranhos, a meio caminho entre o grotesco, o terrível e o meramente divertido, seres que se movimentavam em meio a cenários de sonho, quando não de pesadelo.

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Num tal contexto, não foi difícil à sua imaginação, fertilizada ainda por inúmeras viagens e leituras, plasmar-se uma realidade outra, bem diferente daquela com a qual se depararia rapaz, ao retornar anos mais tarde à vida urbana, o que talvez 13.0.70X0.55.2003explique porque, tendo iniciado dois cursos universitários, não desejou concluir nenhum deles. Descobriu-se, isso sim, pintor, e mais do que pintor, artista, e como tal percebeu que sua missão seria a de um demiurgo: insuflar vida, dar forma àquelas imagens insólitas, àquelas entidades cuja existência estaria fatalmente confinada ao mito, não fora pela força criadora de seus pinceis.

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Sergio Lucena

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W. J. Solha
2006

Fiquei tão impressionado com o quadro “A Nave”, em 1995, que – mesmo sem conhecer o autor -, liguei para cumprimentá-lo. O impacto que me causa a massa escura e poderosa do transatlântico vindo em meio à noite, no espaço imenso do mar aberto, é enorme. O mesmo se dá com a conversa entre os ligadíssimos irmãos Théo e Van Gogh, no leito de morte de Vincent, recriada por ele. Sem falar que o vazio inconcebível, que ele concebeu em torno de João clamando no deserto, me deixa pasmo. Mas minha admiração pela sua obra vem de longe. Começou com a visão, em 86, da maravilhosa tela que é “A Pedra do Reino” (na Funesc), quando ele povoou com suas minúsculas figuras de Ensor, a vasta paisagem de Altdorfer pintada por Flávio Tavares.

Sintomaticamente, é o mundo cavaleiroso e circense de Ariano Suassuna, numa Paraíba, como disse Bráulio Tavares, “alucinada e lancinante” – com suas gerações de Cangaceiros, de rudes Beatos e de Profetas (sob a respiração “dessa estranha Fera, a Terra”) -, que prolifera por essa época no trabalho de Sérgio Lucena, declaradamente influenciado pelos picadeiros de circo, pelo teatro mambembe, por Bruegel, o velho, e por Bosch, por Ensor, é claro, pelas ilustrações de Doré para o Quixote de Cervantes, e, sem dúvida, pela poesia libertadora de Zé Limeira, pai de toda essa gente fabulosa que tem, no seu meio, Zé Ramalho, Miguel dos Santos, Fred Svendsen e Vital Farias.

Típico da busca incessante que já o fizera abandonar os cursos de física e psicologia, que já o levara a morar na Chapada dos Guimarães e há passar um ano em Berlin (a convite da Deutsch-Brasilianische Kulturelle Vereinigung), vivendo agora em São Paulo, Lucena passa, naqueles distantes anos 80, da tinta acrílica para o óleo, em busca de mais cor e luminosidade, avisando que, a partir de então, a luz era a essência de sua demanda. “Paradoxalmente – observa naquele tempo – minha pintura tornou-se cada vez mais sombria”. De fato, seu fantástico João Batista – vox clamantis in deserto – poderia se chamar lux in tenebris. E o que temos aqui, de repente, em plenos Séculos XX e XXI, é justamente uma nova edição do tenebrismo – a exacerbação da técnica do chiaroscuro (claro-escuro) – praticado por Caravaggio, que influenciou uma série de pintores notáveis como Artemisia Gentileschi, Zurbarán, José de Ribera e Rembrandt nos séculos XVI e XVII.

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Sergio Lucena, o viajante imóvel

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Jacob Klintowitz
2004

O desenho de Sergio Lucena é elaborado com requintes de sombras e luzes nuançadas e marcado por uma precisão detalhista que, numa época de mensagens instantâneas, surpreende. O artista parece ter disponível todo o tempo do mundo e uma previsão de longa existência. Em formatos grandes, nestes desenhos se registram pessoas, seres desconhecidos, situações, nas quais sempre existe uma atmosfera de estranheza. Alguma coisa não está exatamente de acordo com a consoladora convenção. E, no entanto, concomitante com este universo de interna indagação, existe o caráter apaziguador da obra realizada com atenção suprema, de cuidada qualidade formal. Uma obra que é o próprio fim da atividade artística e não um intermediário instrumento. Na verdade, todo o tempo do mundo que o artista dá a si mesmo, independente de saber se a sua vida durará tanto quanto a de Matusalém, gera esta sensação: a obra é tão valiosa para o seu criador que podemos partilhar deste universo de eleição. O objeto de atenção do artista e do público é o mesmo.

As pinturas e os desenhos de Lucena tem sempre este aspecto de que foram alvo da máxima atenção do artista e que estavam acima de quaisquer outras preocupações. Algumas vezes, é tal o nível de detalhes e intencionalidades que o artista coloca que ficamos com a impressão de que estamos diante de uma obra-síntese da qual sairá uma série inteira. Os fragmentos têm vida própria.

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O mundo como teatro

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Oscar D’Ambrosio
2003

A escritora francesa Simone de Beauvoir dizia que “é na arte que o homem se ultrapassa definitivamente”. Uma possibilidade de melhor apreensão dessa frase ocorre nas pinturas de Sérgio Lucena. Suas figuras, muito próximas ao grotesco de Goya, lidam justamente com a ilimitada capacidade humana de transformar a realidade por intermédio da imagem.

O vigor demonstrado pelo artista pode gerar numerosas reações, de admiração ou de espanto, de questionamento ou de paixão, mas, acima de tudo, impede uma postura indiferente. Seja em suas cenas mais dramáticas e narrativas ou em alguns retratos ou paisagens, surge sempre um especial poder de cativar o receptor.

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Nascido em 29 de outubro de 1963, em João Pessoa, Paraíba, Lucena, quando criança viajou pelo interior do Estado e, aos 11 anos, foi trabalhar como balconista na loja do pai. Desses dois fatos é possível detectar duas marcas em sua obra: a influência do teatro de bonecos nordestino e a tendência, no início da carreira, de mostrar as pessoas como elas surgiam atrás do balcão, ou seja, a partir do busto, em planos americanos.
Se hoje Lucena abandonou o plano americano, mantém ainda a forte expressividade que viu até a exaustão no teatro de bonecos. Muitos rostos são autênticas máscaras plenas de dramaticidade, imagens prontas a desenvolver toda uma história em que predominam as fortes emoções.
Como todo artista digno desse nome, Lucena tem o espírito inquieto. Aos 17 anos, inicia a sua trajetória universitária, que inclui dois cursos inacabados: Física e Psicologia na Universidade Federal da Paraíba. As indagações da primeira ciência e o estudo dos símbolos presente na segunda, no entanto, mantêm sólida presença em seu trabalho pictórico.

A arte é uma necessidade vital desse paraibano. O circo, com seus personagens e lonas, o teatro mambembe, com suas figuras caricaturais, e a tradição figurativa da arte nordestina são referências obrigatórias, assim como a admiração pelas gravuras de Brughel (o Velho) e de Gustavo Doré, principalmente seu trabalho sobre o Dom Quixote, de Cervantes.

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De todas essas influências, surge uma obra que valoriza as tonalidades intensas e figuras humanas com máscaras ou recriadas com rostos contorcidos. Decorre daí um clima fantástico, próximo ao surrealismo. Se o figurativo predomina, ele vem aliado à presença de figuras demoníacas, lacônicas e, muitas vezes, cômicas, dentro de uma linha imagética em que um certo humor crítico se faz sempre presente.

Em fins de 1986, o próprio Lucena artista verifica um progressivo afastamento de uma arte mais popular e autodidata, próxima ao naïf. A delimitação das formas pelo uso da luz substitui o contorno das formas com a linha, num procedimento mais elaborado de criação estética. Nesse mesmo caminho de busca de maior conhecimento técnico, começa a pesquisar o uso da luz e se aproxima do artista Flávio Tavares, com quem trabalhou no painel A pedra do reino, que homenageia o dramaturgo Ariano Suassuna.

No ano seguinte, numa experiência artística e existencial, Lucena vai morar na Chapada dos Guimarães, com o objetivo de viver em pleno contato com a natureza, mas, já em 1988, volta a João Pessoa, onde, com Flávio Tavares, desenvolve a série A Divina Comédia, que rendeu quatro painéis durante quase um ano de trabalho.

blogParaíso, da série Divina Comédia, Sérgio Lucena e Flávio Tavares

O trabalho entre Tavares e Lucena gerou uma obra híbrida. De qualquer modo, após esse trabalho conjunto, o trabalho do segundo ganhou novas características, como o uso maior das sombras e das figuras grotescas, resultado provavelmente da mencionada preocupação de trabalhar cada vez melhor intensidades e nuances de luz.

Durante esse período, Lucena utilizava a tinta acrílica, conseguindo com ela efeitos de velaturas e sombras próprios da tinta a óleo. As suas máscaras e sensualidade, mais ou menos explícitas de acordo com a tela, ganham assim ainda mais mistério, principalmente na criação de situações inusitadas, onde a luz rouba a cena.

O resultado desse esforço foi à ida para Berlim, Alemanha, primeiro para expor e depois, em 1992, para estudar, com uma bolsa da Deutsch-Brasilianische Kulturelle Vereinigung in Berlin. Cresce assim a possibilidade de pesquisar novas técnicas e estudar os mestres. A paisagem começa então a se tornar dominante na sua pintura, entre outros fatores pela adequação da tinta a óleo para trabalhar grandes espaços.

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Um marco nessa trajetória ocorre em 1995, com o quadro A nave, em que um navio cor de chumbo cruza o mar numa noite clara. Para Lucena, essa obra marca a volta da figura humana ao seu trabalho. Elas retornam a bordo da embarcação e de maneira distinta. São agora menos grotescas, com maior dimensão psicológica e, às vezes, voltadas para temas religiosos, como figuras de santos.

Capaz de criar sensuais Evas e mortais sereias, Sérgio Lucena desenvolve a sua carreira com exposições individuais em sua terra natal, em Berlim e em Washington, EUA, tendo sido premiado em Recife, Rio de Janeiro e João Pessoa. Atualmente residente em São Paulo, prossegue em sua pesquisa técnica para o domínio cada vez maior da pintura a óleo.

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Seja nas amplas paisagens, nas figuras grotescas ou na busca de arquétipos junguianos em figuras cristãs ou das figuras do tarô, o artista paraibano vive a busca constante de ultrapassar os próprios limites a que se refere Simone de Beauvoir. Nesse processo, desenvolve seu estilo peculiar e cativante, que não é consumido facilmente.

Há em Sérgio Lucena uma tendência natural ao questionamento e à busca de novos paradigmas que impede a acomodação. Assim, cada tela é um novo universo pictórico e, ao mesmo tempo, a mesma busca inicial do jovem que, atrás do balcão da loja do pai, via o mundo como se fosse um imenso e fascinante teatro de bonecos.

 

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Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (Aica – Seção Brasil). É pós-graduando no Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (UNESP) e é autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

Alma paulista

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José Neistein
2002

Washington, Junho de 2002.

Sérgio Lucena é um legitimo herdeiro de sua cultura regional, a nordestina, mais especificamente a da Paraíba, seu Estado natal. Dela, ele traz em seu mundo interior a abertura para o mágico, o sobrenatural, o mítico. Sua pintura, antes de ser convidado para integrar o projeto de cartões postais de São Paulo, era feita, em grande parte, daquelas dimensões. Ao longo de sua trajetória, ele foi amadurecendo seu domínio técnico, experimentando com a cor, a forma e a composição, tendo atingido, mais recentemente, pontos cada vez mais altos em sua expressão estética e espiritual.

Essa experiência regional aguçou seu interesse pelo universal. A fusão dessas duas dimensões se deu em São Paulo. Essa fusão, por sua vez, prenuncia vôos ainda mais altos, num futuro não muito distante, porque, basicamente, sua visão da cidade de São Paulo funde o fantástico e o surreal que ele trouxe da Paraíba, com a disciplina formal que a arquitetura e o urbanismo caótico da capital paulista lhe inspiraram, no sentido de construir uma lógica, a partir de uma realidade alógica.

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