Sudário

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Poema de Roberta Ferraz
2008

Ao Sérgio Lucena

Primeiro Instante

Libélulas de pimenta, dedo-de-moça
no arraial de março, os escaravelhos
atiçam o timo do trapezista, dançam
a meia-lua para que ele se esquente
e prossiga, até o pequeno ovo
amanhecido.

Nesta laje todas as memórias pingam.
O mais nítido de nós se apresenta
em sua fantasia. E não há semelhança
no mundo, há uma mesma raiz
um mesmo chão
um mesmo horizonte.

Levantamos o estandarte, brasão-de-lis
torcendo o lombo para que o sol
admire nosso rosto pintado, o palco
cego das sombras, o canto
de um país picaresco.

Na missa da velha senhora,
o padre e o palhaço entoam estrelas
e subimos nos nossos ombros
recolhidos, para suspirar melhor a música
da noite. São óleos odoríferos
– cálice, corola, gineceu –
de um jogo muito velho que aprendemos
durante esta madrugada.

 

Segundo Instante

O meu quarto é um recinto de fibras.
Estanco numa vértebra até que o roxo
de seu limite me mostre a suspensão
das carnes.

Planejo a noite luminosa, sentado entre os seres
de minha insônia.
Eles saem todos das plantas
de meus pés, sobem os artelhos
e bóiam pelo sangue do espelho.
Da negritude vejo sua imagem sobre a tela
e da nesga distância de nós
antecipa-se a hora da estrela
da manhã, um batalhão de homens
rumando à coroa, um hemisfério
tonal de veludos, pedras, lamparinas a óleo
máscaras do vestígio medieval.

Mesmo quando estou sozinho
não estou sozinho.
A infinitude destas senhas
projetam-me a luz. Somos híbridos
com ela, e com o véu suave
que não nos permite transparência.
Lua crescente e cauda do tisnado,
o coisa-à-toa na espreita dos cajados
mostrando os dentes alados à sereia-verde.

No centro da festa o violino, a viola de vintém
e a fornalha dos ardis. Entre nós o bom
Canhestro, e o rum, e o gris
aposento dos duplos, dos traquinas
onde a raposa, a serpente e o peixe-voador
assoalham os olhares estrangeiros.

É uma casa habitada
por antigos pintores mortos
É uma casa-caramujo
de nossa casa-quatro.
Apontada na medianiz do velho mago
que tem na mão as páginas iluminadas
e o diabo ao lado.

Terceiro Instante

Por mais que varra a febre escura

sobre um amuado vento leste,
vem segura a nau afrodisíaca
e no alto a avalanche do peito aonde nasce
e se espraia a árvore solar, manejada
pelo velho mago e os seus fantasmas.

Deixo adiante o sublime de uma ilha
Onde o casal de um só
Dedica-se ao himeneu ancorado.
A luz pode ser uma fímbria
– mas há o farol –
O encontro que se dará
dentro o reino da penumbra.

Não vou só. Eles todos me destacam
eles todos se transformam
durante o cio lunar.
Alquimia:
experimentamos o perfume
da linhaça e o calor se conserva
úmido
dentro do tempo.

A cavalgada do unicórnio e
a estrada das areias amarelas
se bastam, dentro de mim
a mulher se prepara ao nascimento
das núpcias.
Durmo sob o manto real
enquanto ervas crescem no sonho das paredes.

Esta morte, este tapete de relva,
é assistida pelos meus tesouros
e medos, e desde então
o sorriso aberto dos olhos
e a fumaça
de uma nova nau
trans-figuração do albedo.

Quarto Instante

Olhe bem, desnudo senhor, olhe bem

este retrato imantado:
esta contínua correspondência
entre teu corpo brando e a fera obscura.
Se eu me dobro ponte entre tuas partes
estas duas de sombra e norte
– Como o são os teus cavalos
pastando no recorte –
e mais atrás o barco que te trouxeste
à nova lona, é porque percebes
na matéria, a exata medida
entre o alvo e o golpe. A soma.

O mar diurno, azul grego da Paraíba
continua sua jornada.
Existes em tua obra,
e assim dedilhas com o cão
o ramo branco da romãzeira.

Vens, ciente do farol perpétuo
Girando o oceano em sua luz.
Vens e qualquer percalço
do paraíso é logo ensinamento
de moinhos e de florestas
resguardando o teu menino.

Vens, prumo mestiço riste.
A nitidez maior, este cervo
esta dama, esta voz, mareia.
O compromisso com o cetro
e a demanda, te põe frente
à frente com tua própria imagem,
despindo-te das sombras,
doando-te miragem.

Sudário

O corpo são tecidos de uma tela encarnada.
A obra é retrato de um longe,
véus de um princípio instante
de suor e ninhos,
placenta retumbante de alvorada
céus de um negrume inevitável.

Somos todos a mão dada,
o peito marcado pela nave onde viemos
a âncora molhando as pernas de raízes,
dentro o bosque das imagens.

Os cavalos, o sudário, a espada
e os fantasmas espreitando da porta
o momento da levada, a morte
renascendo outra ilha,
outro farol, outro estandarte
e outra máscara.
O velho menino lê sua sorte
sob a tenda circense, conhece
os estigmas, da serpente
o vórtice, e o fluído numa forma
espiralada se ergue.

E o tecido que nos cobre,
a pele colorada, são tempos
revelados daquele mesmo
Porto, Morada.

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